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Soberania digital em IA: a estratégia do Brasil com a China

6 min leitura

A busca por soberania digital em IA impulsiona o Brasil a reforçar sua posição geopolítica global. Recentemente, o país se uniu a outras 28 nações na formação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico), um movimento estratégico com sede em Xangai, na China. Essa iniciativa visa estabelecer uma governança global da IA baseada em modelos de código aberto, o que contrasta com a visão ocidental e oferece ao Brasil uma oportunidade ímpar para desenvolver autonomia tecnológica e proteger seus dados nacionais.

A adesão à Waico posiciona o Brasil em um cenário complexo, onde as potências globais disputam o controle e a regulamentação da inteligência artificial. Enquanto a China propõe um modelo colaborativo e acessível, os Estados Unidos avançam com a iniciativa Pax Silica, focada no controle das cadeias de suprimento de semicondutores, minerais críticos e energia. Este panorama exige que o Brasil adote uma postura ativa e estratégica para assegurar que o desenvolvimento da IA no país beneficie sua população e fortaleça sua independência tecnológica.

A iniciativa chinesa e o contraste com a visão ocidental

A criação da Waico, liderada pela China, representa um marco significativo na construção de uma governança global para a inteligência artificial. O principal objetivo é promover o desenvolvimento de modelos com código aberto, democratizando o acesso à tecnologia e permitindo que qualquer empresa ou organização possa se apropriar e inovar a partir dela. Este modelo é visto como uma alternativa para evitar a concentração de poder e conhecimento em poucas mãos, sejam elas corporações ou nações.

Em contrapartida, a visão dos Estados Unidos para o futuro da IA, denominada Pax Silica, adota uma abordagem mais controladora. A iniciativa norte-americana foca na formação de uma aliança de “aliados confiáveis” para gerenciar e dominar as cadeias de suprimento essenciais à IA, como semicondutores e minerais críticos, além da energia. Essa estratégia sugere uma preocupação com a segurança e o controle, visando manter a liderança tecnológica e geopolítica em um círculo restrito de países.

Oportunidade para a soberania digital em IA do Brasil

Especialistas consultados apontam que a participação na Waico representa uma janela de oportunidades para o Brasil avançar em sua soberania digital em IA. Sérgio Amadeu da Silveira, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) e sociólogo, destaca que o Brasil possui um território extenso e importantes centros de pesquisa universitários, recursos que poucas nações no mundo detêm. Essa base confere ao país uma posição privilegiada para o desenvolvimento autônomo da inteligência artificial.

Amadeu defende que o Brasil pode trilhar um caminho de desenvolvimento mais autônomo e independente na área. Para isso, embora uma aliança com a China seja benéfica e necessária, o país precisa, primeiramente, “fazer o dever de casa”. Isso significa desenvolver uma estratégia própria e sólida que permita absorver o conhecimento e as tecnologias advindas da cooperação internacional, sem cair em novas formas de dependência.

O que se sabe até agora

O Brasil aderiu oficialmente à Waico, uma organização liderada pela China para promover a governança de IA com modelos de código aberto. Especialistas veem essa adesão como uma chance crucial para o país conquistar autonomia tecnológica, mas alertam sobre a necessidade de investimentos robustos em infraestrutura própria e segurança de dados nacionais. Essa iniciativa chinesa se opõe à Pax Silica dos EUA, que busca controle das cadeias de suprimento de IA entre seus aliados.

Infraestrutura e autonomia de dados: o “dever de casa”

O desenvolvimento da infraestrutura crítica em inteligência artificial e a soberania sobre os dados produzidos no país são pontos cruciais. Sérgio Amadeu enfatiza que, sem essa base, o Brasil não conseguirá capitalizar plenamente a cooperação com a China. Ele ilustra a dimensão do desafio: um projeto de IA na universidade, por exemplo, poderia ter metade de seu orçamento direcionado apenas para custos de armazenamento em nuvem, operados por grandes empresas de tecnologia, estrangeiras ou até mesmo chinesas, como a Huawei.

A falta de infraestrutura nacional adequada impede que pesquisadores, universidades e o próprio governo invistam recursos na construção de expertise e capacidade de processamento e armazenamento de dados no Brasil. Isso gera uma dependência contínua de big techs externas, drenando recursos que poderiam ser aplicados no fortalecimento da autonomia tecnológica e no aumento do poder computacional do país. A construção dessa capacidade interna é fundamental para a real efetivação da soberania digital.

O papel do Brasil na geopolítica da inteligência artificial

Ettore Arpini, especialista em governança de IA e fundador da organização Plures, ressalta a posição estratégica do Brasil na geopolítica da inteligência artificial. Segundo ele, o país tem a capacidade única de transitar entre as iniciativas chinesas e ocidentais, o que pode transformá-lo em um ator chave no cenário global. A neutralidade e a habilidade de dialogar com diferentes blocos podem conferir ao Brasil uma vantagem significativa.

Arpini argumenta que a IA não deve ser vista apenas como uma questão setorial, que demanda uma política específica ou regulamentação de mercado. Ele defende que a inteligência artificial precisa ser compreendida como uma vantagem geopolítica e econômica, uma ferramenta poderosa para a prosperidade social. Essa perspectiva eleva a IA a um patamar de oportunidade histórica, capaz de impulsionar o desenvolvimento e o bem-estar da população brasileira de maneira transformadora.

Quem está envolvido

O Brasil, junto a 28 nações, aderiu à Waico, impulsionada pela China. Especialistas como Sérgio Amadeu, da UFABC, e Ettore Arpini, fundador da Plures, oferecem análises cruciais sobre a oportunidade. O governo brasileiro, liderado pelo presidente Lula, defende uma governança intergovernamental e inclusiva da IA, posição reforçada pelas declarações do secretário-geral da ONU, António Guterres, sobre a necessidade de participação global na modelagem da tecnologia.

A visão da ONU e a governança global necessária

O governo brasileiro tem consistentemente defendido que o país não deve se tornar dependente de nenhum modelo de inteligência artificial, seja ele chinês ou ocidental. A postura oficial é de manter diálogo com todas as iniciativas que possam contribuir para alcançar uma soberania digital robusta. Essa abordagem visa garantir que o Brasil possa moldar seu futuro tecnológico de forma autônoma e alinhada aos seus interesses nacionais.

Nos fóruns multilaterais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem sido uma voz ativa, enfatizando que a IA não pode se tornar um privilégio de poucos países ou um instrumento de manipulação nas mãos de bilionários. Ele argumenta vigorosamente pela necessidade de uma governança intergovernamental da IA, onde todos os estados-membros tenham assento e voz ativa. Essa visão ecoa a crescente preocupação global com a equidade e a inclusão no desenvolvimento e uso da tecnologia.

A importância da inteligência artificial é comparada à revolução que a eletricidade ou a internet trouxeram, atravessando e transformando todos os setores da vida econômica e social. O secretário-geral das Nações Unidas (ONU), António Guterres, presente no lançamento da Waico em Xangai, descreveu a IA como a “maior oportunidade da humanidade no século XXI”, mas alertou que ela também pode se tornar “um dos seus maiores riscos” se não for adequadamente governada.

Guterres sublinhou que a tecnologia que moldará o futuro da humanidade deve ser moldada por toda a humanidade, não por um punhado de países ou empresas. Ele reforçou que todas as nações precisam ter um lugar à mesa de discussões e decisões, garantindo que a governança da IA seja inclusiva e representativa, refletindo os valores e necessidades de toda a comunidade global.

O que acontece a seguir

Para consolidar sua soberania digital em IA, o Brasil precisa urgentemente investir em infraestrutura própria para armazenamento e processamento de dados, conforme sugerem os especialistas. Esta ação permitirá ao país não só absorver o conhecimento e as vantagens da Waico, mas também negociar de forma mais igualitária com iniciativas ocidentais, sem criar novas dependências. A implementação de uma estratégia nacional robusta definirá a capacidade do Brasil de se tornar um protagonista na geopolítica da inteligência artificial.

O caminho do Brasil para a autonomia tecnológica

A aliança com a China através da Waico oferece ao Brasil uma via para avançar na sua independência tecnológica, mas o sucesso dessa empreitada depende intrinsecamente de ações internas. A construção de uma infraestrutura robusta, a capacitação de recursos humanos e a formulação de políticas públicas que protejam os dados nacionais são imperativos. O país precisa transformar a oportunidade de cooperação em uma fundação sólida para sua própria inovação, garantindo que o desenvolvimento da inteligência artificial sirva aos interesses e ao progresso da sociedade brasileira. A capacidade de transitar entre diferentes visões globais da IA pode ser o diferencial que posicionará o Brasil como um ator relevante na moldagem do futuro digital.

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