Cientistas brasileiros, liderados por pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e com dados do laboratório Criosfera 1, identificaram os rios atmosféricos como o principal fator por trás de quase 80% das ondas de calor na Antártica. Recentemente, a descoberta, apresentada na 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), demonstra que essas correntes transportam calor e umidade dos trópicos para o continente gelado, acelerando o degelo e gerando preocupação com a elevação do nível dos oceanos.
Cientistas brasileiros revelam que correntes invisíveis de vapor d’água são o principal motor das ondas de calor no continente gelado, acelerando o degelo e a elevação dos oceanos.
A ascensão dos rios atmosféricos na Antártica
O continente antártico, um baluarte de gelo e frio, enfrenta um cenário de aquecimento acelerado. Fenômenos climáticos globais estão reescrevendo a dinâmica de suas temperaturas. Entre eles, os rios atmosféricos emergem como protagonistas inesperados. Embora invisíveis a olho nu, essas vastas correntes transportam enormes volumes de vapor d’água por milhares de quilômetros na atmosfera, atuando como verdadeiros corredores de umidade e calor que ligam regiões tropicais ao gélido extremo sul do planeta.
A pesquisa brasileira, com foco aprofundado nesse fenômeno, oferece uma compreensão crucial sobre como essas correntes estão alterando o comportamento climático da Antártica. A cada nova onda de calor, a evidência de sua influência cresce, despertando a comunidade científica para a necessidade de monitoramento e pesquisa contínuos. A compreensão dos rios atmosféricos é fundamental para prever cenários futuros e mitigar os impactos de um planeta em transformação.
Os alarmantes dados da pesquisa brasileira
Os resultados foram apresentados por Heitor Evangelista da Silva, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), durante a reunião anual da SBPC. Suas análises sublinham a magnitude do transporte de umidade. Segundo o pesquisador, aproximadamente 90% de toda a umidade que se desloca dos trópicos para as áreas polares é atribuída à ação dos rios atmosféricos. Este dado reforça a ideia de que o fenômeno não é marginal, mas sim um motor central na circulação atmosférica global.
As medições realizadas pelo avançado laboratório Criosfera 1, uma iniciativa brasileira de ponta, confirmam que a intensidade e a frequência desses eventos se fortaleceram drasticamente nas últimas décadas. Anteriormente, os rios atmosféricos eram associados a cerca de um quarto das ondas de calor observadas no interior da Antártica. Hoje, essa proporção saltou para quase 80%, indicando uma aceleração preocupante na capacidade dessas correntes de transportar calor para o continente.
Registros inéditos de aquecimento extremo
Os efeitos devastadores dessa nova dinâmica já são perceptíveis em áreas que antes eram consideradas relativamente estáveis. Em um evento sem precedentes, a estação Concórdia, localizada em uma das regiões mais frias e isoladas da Antártica, registrou em 2022 uma temperatura impressionante de 43 °C acima do esperado para o período. Este pico de calor foi uma anomalia nunca antes observada em qualquer registro histórico meteorológico do continente, chocando a comunidade científica e evidenciando a intensidade da mudança.
Outros dados coletados pela equipe de pesquisa igualmente chamaram a atenção. Em áreas localizadas na latitude 84 Sul, os termômetros chegaram a marcar -3 °C. Essa temperatura, apesar de ainda abaixo de zero, está perigosamente próxima do ponto de derretimento do gelo nessa região, uma margem que diminui a cada novo registro. Tais observações confirmam que o avanço do aquecimento está atingindo o coração do continente, com implicações profundas para a estabilidade das vastas massas de gelo antártico.
Entre os resultados mais impactantes do monitoramento contínuo, destacam-se: a ligação de quase 80% das ondas de calor aos rios atmosféricos; a proveniência de cerca de 90% da umidade polar dessas correntes; o registro de temperaturas de até -3 °C em áreas remotas; e o avanço cada vez maior desses eventos para o interior da Antártica. Estes pontos ilustram a urgência da situação e a necessidade de uma resposta global.
O que se sabe até agora
Os rios atmosféricos, massas de vapor d’água que fluem na atmosfera por milhares de quilômetros, agora são responsáveis por cerca de 80% das ondas de calor na Antártica. Essa incidência é muito maior que a observada em décadas passadas, intensificando o derretimento do gelo. Registros mostram temperaturas recordes em regiões antes pouco vulneráveis, confirmando uma aceleração sem precedentes no aquecimento continental.
Geleiras vitais sob ameaça de colapso
A preocupação dos pesquisadores se estende às geleiras Thwaites e Pine Island, localizadas na Antártica Ocidental. Estas são consideradas pilares fundamentais para a manutenção da estabilidade do vasto gelo continental. A perda de suas porções frontais, que funcionam como barreiras naturais, pode desencadear um efeito dominó, resultando em um colapso em larga escala das camadas de gelo que se estendem para o interior do continente.
O cenário de derretimento nessas geleiras é catastrófico. O colapso apenas da Thwaites, por exemplo, poderia contribuir para uma elevação média dos oceanos em 63 centímetros. Se a Pine Island também perder sua estabilidade, somando-se ao efeito da Thwaites, a elevação global do nível do mar poderia chegar a impressionantes 1 metro. Essas projeções alarmantes sublinham a gravidade do impacto dos rios atmosféricos e a necessidade de ações preventivas globais.
Quem está envolvido
Pesquisadores brasileiros, especialmente o professor Heitor Evangelista da Silva, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), são os protagonistas desta descoberta fundamental. O projeto Criosfera 1, em colaboração com o Centro Polar e Climático da UFRGS, fornece os dados cruciais para o monitoramento em tempo real das complexas mudanças climáticas na Antártica, com foco nos rios atmosféricos.
O perigoso ciclo do gelo marinho e o aquecimento
Desde 2015, os cientistas brasileiros e internacionais observam uma redução acelerada e sem precedentes do gelo marinho que circunda a Antártica. Essa diminuição cria um ciclo de retroalimentação perigoso: com menos gelo para refletir a radiação solar de volta para o espaço, o oceano absorve uma quantidade maior de calor, aquecendo suas águas. Esse aquecimento, por sua vez, alimenta ainda mais o derretimento do gelo, intensificando o processo de aquecimento do continente e das á águas circundantes.
A magnitude dessa perda é alarmante. A diminuição do gelo marinho ao redor da Antártica equivale a uma área duas vezes maior que a da Groenlândia em perda de massa. Essa escala de transformação não era prevista pelos modelos numéricos climáticos existentes, indicando que as mudanças estão ocorrendo mais rapidamente e com maior intensidade do que o esperado. Os rios atmosféricos contribuem para essa desestabilização ao transportar calor e umidade, acelerando o derretimento e minando a barreira protetora do gelo marinho.
O que acontece a seguir
O Brasil planeja expandir o monitoramento na Antártica, reforçando suas estações de pesquisa e instalando, inclusive, o primeiro telescópio brasileiro no continente gelado. O objetivo é aprofundar a compreensão sobre a dinâmica dos rios atmosféricos, seus impactos no gelo marinho e continental e as projeções para o nível global dos oceanos, informando futuras estratégias climáticas e a proteção ambiental.
A expansão do monitoramento brasileiro no continente gelado
Para aprofundar a compreensão dessas transformações complexas, o projeto brasileiro, com o apoio do Criosfera 1, continuará ampliando sua rede de monitoramento no continente antártico. Além de acompanhar a concentração de gases de efeito estufa, a presença de aerossóis e o acúmulo de neve, essenciais para a saúde climática, a próxima missão ambiciona um novo marco: a instalação do primeiro telescópio brasileiro na Antártica.
Esta iniciativa pioneira reforçará significativamente a capacidade do Brasil de observar e analisar mudanças que possuem o potencial de influenciar o clima muito além das fronteiras do continente gelado. O monitoramento aprimorado é crucial para entender como os rios atmosféricos e outros fenômenos estão remodelando o futuro do planeta, fornecendo dados vitais para a ciência e para as decisões políticas globais sobre as mudanças climáticas.





