O projeto Porãbask, iniciativa que transforma vidas na cidade de Ponta Porã, Mato Grosso do Sul, alcançou um feito histórico nesta semana ao conquistar o título nacional masculino sub-18 dos Jogos Escolares Brasileiros (Jebs) em Brasília. A vitória, emocionante e inédita, carregou um significado ainda mais profundo: o time soube da triste notícia do falecimento do ídolo Oscar Schmidt, o Mão Santa, pouco antes de entrar em quadra para a final. Para os jovens atletas e para o treinador Hugo Costa, o impacto da perda do mentor que viabilizou e inspirou a transformação do programa social foi imenso, tornando o triunfo uma homenagem póstuma inesquecível.
Uma vitória com sabor agridoce e emoção em quadra
A equipe de Mato Grosso do Sul enfrentou o representante de São Paulo na final do basquete masculino sub-18, em um confronto decisivo que testou não apenas suas habilidades técnicas, mas também sua resiliência emocional. Minutos antes do apito inicial, a notícia do adeus de Oscar Schmidt, uma figura monumental na história do basquete brasileiro e um pilar para o desenvolvimento do projeto Porãbask, abalou a todos. A mistura de sentimentos — a adrenalina da competição, a expectativa pela vitória e a dor pela perda de um ícone — criou uma atmosfera única de silêncio e profunda emoção entre os atletas.
O placar final de 74 a 63 a favor do time de Ponta Porã selou a conquista inédita da série Ouro. No entanto, a alegria da vitória estava intrinsecamente ligada à memória de Oscar. O treinador Hugo Costa, mentor do projeto e amigo pessoal do Mão Santa, não conteve as lágrimas ao falar sobre o momento. Para ele, ser campeão no dia da morte de seu maior incentivador era uma coincidência marcada por grande simbolismo e um tributo natural ao legado de obstinação e paixão pelo basquete que Schmidt deixou.
Das quadras de terra ao pódio nacional
A história do projeto Porãbask, inicialmente batizado de “Meninos do Terrão”, remonta a 2004, quando Hugo Costa o idealizou no Jardim Ivone, uma periferia de Ponta Porã. Naquela época, a realidade era de uma quadra improvisada, sem a infraestrutura mínima para a prática digna do esporte. A paixão de Hugo e o potencial das crianças, no entanto, eram evidentes, e a visão de um futuro melhor para aqueles jovens através do basquete já se delineava.
A grande virada ocorreu a partir de 2007. Oscar Schmidt, já consolidado como um dos maiores nomes do basquete mundial, visitou a cidade para realizar palestras. Foi nesse contexto que ele conheceu o projeto de Hugo Costa e rapidamente se encantou pela iniciativa. A partir desse encontro, o que era uma admiração de fã transformou-se em uma amizade sólida e um compromisso duradouro. Oscar começou a advogar pela causa, utilizando sua influência para angariar recursos em diversas palestras pelo país. Seu empenho foi crucial para a compra do terreno e, posteriormente, para a construção de um ginásio moderno, que hoje leva o seu nome em honra à sua contribuição inestimável.
O que se sabe até agora: o projeto Porãbask, que começou com recursos mínimos em uma quadra de terra, evoluiu para uma estrutura sólida graças ao apoio de Oscar Schmidt. Recentemente, a equipe juvenil conquistou o Campeonato de Basquete dos Jogos Escolares Brasileiros, marcando a primeira vez que o time de Ponta Porã alcança o lugar mais alto do pódio em um torneho nacional. Esta vitória é um testemunho da persistência do treinador Hugo Costa e do poder transformador do esporte.
O legado inestimável de Mão Santa
Oscar Schmidt não foi apenas um benfeitor financeiro para o projeto Porãbask; ele foi uma fonte constante de inspiração e um mentor. Hugo Costa, o treinador e fundador, enfatiza que Oscar ensinou a importância da obstinação e da crença de que o basquete, e o esporte em geral, pode e deve ser acessível a todos, independentemente da condição social ou da localização geográfica. “Muita gente pensa que basquete não seria para pobre. Nem para periferia. O Oscar ensinou para a gente que é possível fazer basquete em qualquer lugar”, declarou Costa, resumindo a filosofia que permeou a colaboração entre eles.
A materialização dessa filosofia não se deu apenas na quadra coberta e equipada, mas no espírito que o projeto incutiu nos jovens. O ginásio com o nome de Oscar Schmidt é um símbolo tangível de sua generosidade e visão, um farol para a comunidade. A vitória nos Jebs, conquistada no mesmo dia de sua partida, foi naturalmente dedicada a ele. “Foi a primeira vez que fomos campeões. Que seja uma homenagem a ele”, afirmou o treinador, reforçando a conexão eterna entre o ídolo e o sucesso do programa social.
Formando atletas e cidadãos em Ponta Porã
Mais do que formar futuros atletas de basquete, o objetivo central do projeto Porãbask sempre foi o de moldar cidadãos. Hugo Costa se orgulha de ver seus ex-alunos seguindo diversas carreiras, de formados em educação física e medicina a outras profissões, mantendo o contato e os valores aprendidos no esporte. A disciplina, o trabalho em equipe, a responsabilidade e a superação de desafios são lições que se estendem muito além das quatro linhas da quadra, preparando os jovens para os desafios da vida.
A presença contínua do clube na comunidade do Jardim Ivone transformou a face do lugar, convertendo-o em um polo de referência esportiva e social. Essa atuação vai ao encontro da função essencial do profissional de educação física, que, segundo Hugo Costa, é o de educar crianças e adolescentes através do esporte, incutindo valores fundamentais. Essa metodologia de ensino, focada no desenvolvimento integral, é um dos pilares que sustenta o sucesso e a longevidade do programa.
Quem está envolvido: O treinador Hugo Costa é o fundador e pilar do projeto Porãbask, que tem Oscar Schmidt como seu maior incentivador e nome. Os atletas Rafael Cardozo e Samuel Menezes são exemplos dos jovens talentos que se destacaram na equipe campeã dos Jebs. A comunidade de Ponta Porã, e em especial o Jardim Ivone, é a base e o principal beneficiário do trabalho realizado, que já formou diversos profissionais e cidadãos responsáveis ao longo dos anos.
A ascensão de novos talentos e o sonho mundial
No pódio dos Jebs, as histórias individuais dos jovens atletas vieram à tona. Rafael Cardozo, de 17 anos, estudante do terceiro ano do ensino médio, pensava na mãe, que o cria sozinha junto ao irmão mais novo. Sua gratidão a ela foi imediata. Com planos de cursar gestão hospitalar, ele vê o basquete como uma diversão e um caminho para o sucesso. “Quero chegar lá no topo. E é preciso trabalhar pra chegar lá”, expressou, demonstrando a determinação que o esporte lhe ensinou.
Samuel Menezes, também de 17 anos e cestinha da partida com impressionantes 30 pontos, estava igualmente emocionado. O pivô, que aspira a um curso superior de educação física e a uma carreira ligada ao esporte, lembrou-se dos treinos diários e do esforço conjunto. Ele, que costuma assistir aos jogos antigos de Oscar pela internet, ligou para os pais para compartilhar a alegria da conquista. Ambos os jovens refletiam a importância de Oscar Schmidt, não apenas como atleta, mas como um símbolo de possibilidade para o basquete em regiões menos favorecidas.
O que acontece a seguir: A vitória nos Jogos Escolares Brasileiros abre portas para uma oportunidade ainda maior. A equipe de Ponta Porã, representando o Brasil, embarcará para o Mundial Escolar de Basquete. O torneio será realizado na cidade de Zlatibor, na Sérvia, entre os dias 13 e 22 de junho. Esta participação internacional representa não apenas o ápice esportivo para esses jovens, mas também uma projeção do potencial e da capacidade do projeto Porãbask em um cenário global, levando a mensagem de Oscar Schmidt ainda mais longe.
Horizonte ampliado: o impacto duradouro do basquete
A conquista do campeonato nacional pelo projeto Porãbask, sob a sombra inspiradora de Oscar Schmidt, transcende a mera celebração esportiva. Ela solidifica a convicção de que o basquete, quando aliado a um propósito social, tem o poder de reescrever destinos, formar caráter e pavimentar caminhos para um futuro mais promissor. A equipe de Ponta Porã, ao se preparar para representar o Brasil no cenário mundial, carrega não só a responsabilidade de um país, mas também a chama de um legado, demonstrando que a obstinação e a crença nos jovens podem erguer sonhos do terrão aos mais altos pódios. O impacto desta vitória ressoará por gerações, ecoando o ensinamento de Mão Santa: o basquete é para todos e pode transformar qualquer lugar em um celeiro de talentos e cidadãos.





