Ex-atletas do lendário Esporte Clube Radar, que formaram a base da seleção nos anos 80, compartilham emoções e celebram a sanção de lei que garante indenização.
As pioneiras do futebol feminino — incluindo Marilza Martins da Silva, a Pelezinha; Marisa Pires, a Caju, primeira capitã da seleção brasileira; e Márcia Matos, a Russa — recentemente revisitavam suas marcantes trajetórias no programa Sem Censura, da TV Brasil. A ocasião não só celebrou o legado dessas mulheres que desafiaram a proibição do esporte desde os anos 1940, mas também destacou a recente sanção de uma lei que garante indenização de R$ 500 mil às atletas que representaram o Brasil entre 1988 e 1991. A transmissão, ocorrida nesta semana, trouxe à tona histórias de superação e a luta por reconhecimento, que agora se concretiza em um marco legislativo.
A saga de uma proibição histórica
Por décadas, o futebol feminino permaneceu sob a sombra de um decreto proibitivo, imposto pelo então presidente Getúlio Vargas nos anos 1940. Essa medida cerceou o desenvolvimento do esporte para mulheres, limitando seu crescimento e visibilidade. Somente em 1980, o cenário começou a mudar com a regularização da modalidade, abrindo caminho para que atletas talentosas pudessem, finalmente, sonhar com uma carreira profissional e representação nacional.
O papel do Esporte Clube Radar
No epicentro dessa transformação estava o Esporte Clube Radar, sediado em Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro. Fundado em 1932, o clube assumiu um papel pioneiro ao abraçar o futebol feminino em 1981, tornando-se uma verdadeira incubadora de talentos. Sob a liderança visionária do empresário Eurico Lyra, o Radar não apenas desenvolveu uma equipe de ponta, mas também serviu de base crucial para a seleção brasileira feminina ao longo dos anos 80, formando atletas que fariam história.
A leveza e habilidade das atletas eram notáveis, como evidenciado pelo apelido de Marilza Martins da Silva. Eurico Lyra a batizou de Pelezinha ao observar sua performance na areia, descrevendo-a: “Ela corre e não pisa na areia. Ela flutua e consegue driblar na areia. Aí ela é a Pelezinha”, disse o empresário, reconhecendo o talento excepcional da jogadora. Essa era a atmosfera de paixão e dedicação que permeava o clube e as vidas das pioneiras do futebol feminino.
A emoção de representar o Brasil
Um dos momentos mais emocionantes para essas atletas ocorreu em 1988, quando Eurico Lyra comunicou que elas representariam a Seleção Brasileira Feminina de Futebol na China. A empolgação foi imensa ao receberem a icônica camisa amarelinha, adornada com o emblema da CBF e o escudo do Radar. “É uma emoção você ir pra a China”, relembrou Pelezinha. Embora a noção de jogar em uma seleção feminina não fosse um sonho inicialmente concebido devido à proibição, a oportunidade reacendeu essa chama.
Pelezinha compartilhou que o verdadeiro anseio era participar do primeiro mundial feminino, algo que parecia inatingível na época. “A gente tinha um sonho de jogar o primeiro mundial feminino. A gente não sabia se isso seria possível, porque o futebol ainda não existia.” A convocação posterior para o primeiro campeonato mundial confirmou o sonho: “Meu Deus vou ter de voltar à China para realizar esse sonho que eu tinha”, expressou a ex-atleta, evidenciando a grandiosidade daquele momento para as pioneiras do futebol feminino.
O que se sabe até agora sobre o reconhecimento?
A história das pioneiras do futebol feminino, que lutaram contra a proibição e pela legitimação de seu esporte, ganhou um novo capítulo com a participação delas no programa Sem Censura. A discussão ressaltou a trajetória dessas mulheres, que desde os anos 1940 enfrentaram obstáculos imensos para praticar o futebol. O ponto central da celebração atual é a recente sanção de uma lei que reconhece e indeniza essas atletas, marcando um momento histórico de reparação e valorização de seus legados.
Quem impulsionou essa conquista?
Entre os nomes envolvidos na conquista da nova lei, destacam-se as próprias pioneiras do futebol feminino, como Marilza Martins da Silva (Pelezinha), Marisa Pires (Caju) e Márcia Matos (Russa), cujas histórias foram fundamentais para mobilizar o apoio necessário. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a legislação, e a figura de Marileia dos Santos, conhecida como Michel Jackson, atual integrante do Ministério do Esporte, foi crucial na articulação e trabalho silencioso que levou à aprovação.
O futebol feminino e a evolução do apoio
Marisa Pires, a Caju, refletiu sobre a diferença na percepção do público em relação aos jogos de futebol feminino. Contrariando a ideia de que os estádios estariam vazios, ela afirmou: “Os estádios sempre foram lotados. Os jovens pensam que os estádios ficavam vazios, mas não ficavam. Todos queriam ir assistir aos jogos, para ver se as mulheres jogavam bem.” Ela lembrou a surpresa dos homens ao testemunharem a qualidade do futebol feminino, reconhecendo que “futebol também é para mulher”.
Naquela época, as jogadoras não recebiam salários fixos, dependendo do “bicho” por partida, um valor em dinheiro pago apenas em caso de vitória. “Se perdessem, não levavam nada para casa”, contou Caju. Essa persistência, o amor e a paixão inabaláveis foram os verdadeiros motores que impulsionaram as pioneiras do futebol feminino, elevando o esporte ao patamar de reconhecimento e profissionalismo que se observa nos dias atuais, inspirando gerações futuras.
A lei dos R$ 500 mil: Um marco para as veteranas
A sanção da lei pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que prevê o pagamento de R$ 500 mil para as atletas que representaram o Brasil entre 1988 e 1991, representa um divisor de águas. Marisa Pires (Caju) expressou o sentimento de espera: “Foram 38 anos esperando. Ele veio tarde, mas veio muito bem. Só Deus sabe a emoção que a gente está tendo”. Esta premiação não se restringe às atletas vivas; os familiares daquelas que já faleceram também serão contemplados, garantindo justiça a toda uma geração.
A gratidão e a emoção eram palpáveis. Pelezinha agradeceu: “Eu não pude realizar todos os planos quando jogava. Mas Deus me deu essa força, de chegar aos 62 anos e realizar metade dos planos que sonhei”. A lei permite que essas mulheres, que dedicaram suas vidas ao esporte em tempos de adversidade, possam agora desfrutar de um descanso merecido e concretizar sonhos antigos, um verdadeiro alívio financeiro e emocional para as pioneiras do futebol feminino.
A incansável articulação de Michel Jackson
Márcia Matos, a Russa, fez questão de ressaltar a importância de Marileia dos Santos, a Michel Jackson, atualmente no Ministério do Esporte. Russa revelou que Michel agiu em silêncio por oito anos, trabalhando incansavelmente para que as atletas pioneiras do futebol feminino conseguissem o valor de R$ 500 mil por meio da lei sancionada. “Nós temos que ter essa gratidão a Michel. Ela foi incansável. Correu atrás e conseguiu que as atletas pioneiras do futebol feminino fossem beneficiadas. Ela correu atrás”, comemorou Russa, destacando a dedicação e o impacto transformador do trabalho de bastidores.
Qual o legado para as futuras gerações?
A vitória dessas mulheres transcende o valor financeiro; é um testemunho da persistência e da paixão que moldaram o futebol feminino brasileiro. Marisa Pires (Caju), emocionada, resumiu o impacto: “Deus me permitiu, aos 59 anos, ter essa vitória. A vitória de hoje vai ajudar muito no nosso futuro. A gente vai poder viver e descansar um pouquinho. O meu choro é por toda uma geração que conseguiu essa conquista”. Este reconhecimento não é apenas uma reparação, mas um incentivo para que as futuras gerações de atletas continuem a lutar por seus direitos e sonhos, inspiradas pelas que vieram antes.
A história das pioneiras do futebol feminino serve como um poderoso lembrete de que a perseverança e o talento sempre encontram seu caminho, mesmo diante das maiores adversidades. A nova lei solidifica o lugar dessas heroínas na história do esporte nacional e abre novas perspectivas de apoio e valorização para todas as mulheres que escolhem seguir a bola, pavimentando um caminho mais justo e promissor.





