Saúde

Por que o parto cesariana domina no Brasil? Fatores revelados

7 min leitura

Pesquisa do Unicef detalha fatores psicológicos, sociais e estruturais que impulsionam o elevado número de nascimentos por cesariana no país.

O parto cesariana no Brasil, que excede em muito as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), é resultado de uma complexa interação de fatores psicológicos, sociais e estruturais, e não apenas uma escolha individual, conforme revela uma pesquisa divulgada recentemente pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). O estudo aprofunda-se nas razões por trás da alta prevalência deste procedimento, contrastando com o desejo inicial de parto normal de muitas gestantes.

As altas taxas e o panorama global

A Organização Mundial da Saúde (OMS) preconiza que até 15% dos nascimentos ocorram por via de parto cesariana, considerando-o um procedimento crucial para salvar vidas em situações de emergência. No entanto, o excesso de intervenções cirúrgicas pode acarretar riscos adicionais tanto para a mãe quanto para o bebê, dada a sua complexidade e o tempo de recuperação envolvido. No Brasil, a realidade difere drasticamente dessa diretriz: a proporção de partos cesarianos ultrapassa 60% do total de nascimentos, e na rede privada de saúde, esse índice se aproxima de 90%.

Essa disparidade coloca o país entre os três com as maiores taxas de parto cesariana no mundo, um dado alarmante que sinaliza a influência de diversos elementos além das indicações médicas estritas. O cenário desafia a compreensão de como se constrói a decisão pela via de nascimento, sugerindo a existência de pressões e condições que moldam essa escolha de forma significativa.

O que se sabe até agora

As taxas de parto cesariana no Brasil superam 60% no geral e chegam a quase 90% na rede privada, muito acima dos 15% recomendados pela OMS. Um estudo do Unicef, baseado em pesquisa anterior da Fiocruz de 2014, investigou as influências e barreiras que levam as gestantes a optarem pela via cirúrgica, mesmo quando o desejo inicial era pelo parto normal, evidenciando uma complexa trama de fatores.

Aprofundando nas influências da decisão

O estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância partiu de uma pesquisa seminal divulgada em 2014 pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que revelou que sete em cada dez gestantes brasileiras desejavam um parto normal no início da gravidez. O objetivo do Unicef foi precisamente desvendar o que acontece ao longo da gestação e no momento do parto que altera essa preferência, levando um grande número dessas mulheres a submeterem-se a um parto cesariana.

Intitulada “Já decidiu sobre o parto? Influências e barreiras na decisão da via de nascimento entre gestantes”, a pesquisa coletou dados em duas importantes capitais brasileiras: São Paulo (SP) e Belém (PA). Foram ouvidas 94 gestantes e puérperas, além de 37 profissionais de saúde, contemplando participantes tanto da rede pública (SUS) quanto da rede privada, garantindo uma visão abrangente das diferentes realidades.

Quem está envolvido

A pesquisa ouviu 94 gestantes e puérperas, além de 37 profissionais de saúde, em São Paulo (SP) e Belém (PA), abrangendo tanto a rede pública quanto a privada. O Unicef e a Fiocruz são as instituições principais por trás do estudo. A especialista em Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, Stephanie Amaral, forneceu importantes análises e depoimentos, destacando a atuação de profissionais de saúde e o impacto de relatos de outras mulheres.

Medo, informação e o papel social da dor

As cidades pesquisadas refletem a alta prevalência da cesariana. Em São Paulo, no ano de 2024, 56,19% dos nascimentos ocorreram via cesariana, índice que atinge 71,05% em hospitais privados. Belém apresenta taxas ainda mais elevadas, com 69,28% dos nascimentos gerais e 80,41% na rede particular. Ambas as cidades possuem leis que asseguram à gestante o direito de solicitar a cirurgia no momento do parto, o que pode influenciar as estatísticas.

O Unicef identificou um complexo conjunto de influências positivas e barreiras que ora favorecem, ora impedem a escolha pelo parto normal. O desejo de protagonismo e de uma experiência de parto positiva é comum, mas o estudo conclui que “outras condições sociais e estruturais também são determinantes na forma como cada gestante vivencia e constrói sua decisão”, superando muitas vezes a vontade individual.

No âmbito psicológico, a perspectiva de uma recuperação pós-parto mais rápida é um fator positivo para a escolha do parto normal. Contudo, o medo da dor aparece como um potente inibidor, frequentemente inclinando a balança para o parto cesariana. Essas crenças não são isoladas; elas estão profundamente enraizadas no plano social, pois as gestantes são fortemente influenciadas pelas experiências de outras mulheres, especialmente familiares próximas como mães e avós.

Stephanie Amaral, especialista em Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, ressalta que essas narrativas contribuem significativamente para a construção social do parto normal como uma experiência de grande sofrimento. Ela alerta que muitas dessas histórias, na realidade, configuram violência obstétrica e deveriam ser evitadas. “Relatos de parto altamente desrespeitosos, com episiotomia presente, com vários procedimentos e intervenções que não eram necessárias, com indução de parto sem necessidade… Todas essas violências estão muito presentes no imaginário das pessoas e na vivência de outras”, complementa Amaral, sublinhando o impacto desses traumas coletivos na escolha da via de nascimento.

Desigualdade social e a escolha do parto

A influência da desigualdade social no parto cesariana é um dos pontos mais críticos do estudo. Entre as usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS), as experiências familiares tendem a valorizar mais o parto normal, impulsionadas pelas dificuldades enfrentadas no pós-operatório de uma cesariana. No entanto, Stephanie Amaral esclarece que essa preferência muitas vezes está atrelada a uma faceta cruel da desigualdade social: “Essa escolha pelo parto normal está muito relacionada à necessidade de ter uma recuperação rápida, por não ter uma rede de apoio para cuidar do bebê e até de outros filhos e da casa”.

Por outro lado, entre as gestantes que utilizam o serviço privado, a ausência de uma rede de apoio sequer é mencionada como desvantagem para o parto cesariana. Nesse segmento, a motivação para o parto normal difere: “No setor privado, as mulheres que escolhem o parto normal fazem isso porque entendem os benefícios para a mãe e para o bebê. Então, elas se preparam e muitas vezes têm condição de contratar uma equipe própria para ter realmente uma experiência positiva de parto”, explica a especialista.

Outra barreira identificada exclusivamente entre usuárias do SUS é o desejo de realizar a laqueadura. Esse fator muitas vezes leva as gestantes a optarem pelo parto cesariana, mesmo reconhecendo os riscos da cirurgia e o desconforto do pós-operatório. Isso, segundo Stephanie Amaral, evidencia a falha na orientação sobre outros métodos contraceptivos de longa duração, eficazes e disponíveis no SUS, como o implante subdérmico e o DIU, ou mesmo sobre a possibilidade de realizar a laqueadura após o parto normal ou fora do período gestacional.

O que acontece a seguir

A divulgação desses dados pelo Unicef visa impulsionar o debate e a formulação de políticas públicas mais eficazes. Espera-se que as conclusões do estudo incentivem a melhoria da assistência pré-natal, o esclarecimento sobre os diferentes métodos contraceptivos e a promoção de uma cultura de parto mais humanizada, permitindo que as gestantes exerçam um protagonismo informado e apoiado em suas decisões em relação ao parto cesariana ou normal.

Barreiras estruturais e o papel da equipe de assistência

Entre os fatores estruturais, a centralidade das equipes de assistência desponta tanto como facilitador quanto como barreira para a escolha do parto. A qualidade do pré-natal e o alinhamento dos profissionais de saúde com as melhores práticas de parto humanizado são cruciais. Quando a equipe oferece suporte contínuo, informação clara e um ambiente de respeito, a gestante sente-se mais segura para optar pelo parto normal. Por outro lado, a falta de protocolos claros, a pressão por conveniência médica e a desinformação por parte da equipe podem empurrar a mulher para o parto cesariana.

A preparação para o parto, que deveria ser um pilar do pré-natal, muitas vezes é deficiente. A ausência de cursos informativos, o estímulo inadequado ao conhecimento sobre o próprio corpo e o processo fisiológico do parto contribuem para o medo e a insegurança. Hospitais com infraestrutura limitada para partos normais ou com rotinas hospitalares que favorecem o parto cesariana também se tornam obstáculos, reforçando a ideia de que a cirurgia é a via mais segura ou a única opção viável. As políticas institucionais e a cultura organizacional dos centros de saúde exercem um impacto decisivo na decisão final da gestante.

Rumo a um parto mais consciente e humanizado: Desafios e perspectivas

A complexidade por trás das elevadas taxas de parto cesariana no Brasil exige uma abordagem multifacetada. Não se trata apenas de uma questão médica, mas de um desafio social profundo que perpassa aspectos psicológicos, econômicos e estruturais. O estudo do Unicef ilumina a necessidade urgente de reformular as políticas de saúde materna, investir na educação das gestantes e de suas redes de apoio, e capacitar os profissionais de saúde para oferecer uma assistência verdadeiramente centrada na mulher e no bebê.

O caminho para reduzir as taxas de cesariana e promover o parto normal passa pela desmistificação da dor, pelo combate à violência obstétrica e pela garantia de que todas as mulheres, independentemente de sua condição socioeconômica, tenham acesso a informações completas e a uma rede de apoio qualificada. Somente assim será possível assegurar que a via de nascimento seja uma escolha informada e respeitada, alinhada com as necessidades e desejos de cada gestante, contribuindo para uma experiência de parto mais positiva e saudável para toda a família.

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