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Eleições em Israel: Voto define futuro político do país

7 min leitura

Eleições em Israel mobilizam cerca de 7 milhões de eleitores nesta terça-feira, marcando a primeira vez que os cidadãos vão às urnas desde o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023. A votação, que poderá decidir se Benjamin Netanyahu permanece no poder após anos de liderança, coloca três figuras de perfil linha-dura na disputa pela liderança do governo, com resultados aguardados para o final desta quarta-feira.

O pleito ocorre em um momento de extrema tensão e incerteza regional, refletindo profundamente os sentimentos da população israelense em relação à segurança nacional e ao futuro de seu país. A escolha de um novo governo terá implicações significativas tanto para a política interna quanto para a dinâmica geopolítica do Oriente Médio.

Um cenário político redefinido após outubro de 2023

O ataque de 7 de outubro do Hamas alterou drasticamente o panorama político e social de Israel. Antes do incidente, o país vivia sob a sombra de reformas judiciais propostas por Netanyahu que geravam divisões profundas. Agora, a prioridade máxima dos eleitores é a segurança, um fator que molda as propostas e o discurso de todos os principais candidatos que disputam as eleições em Israel.

A percepção pública sobre a capacidade do governo de proteger seus cidadãos tornou-se o principal critério de avaliação. O desgaste da imagem do atual primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, apesar de sua vasta experiência, é visível em parte da população que o responsabiliza pela falha de segurança que antecedeu o ataque. Essa nova realidade força os candidatos a apresentarem soluções robustas e convincentes para os desafios de segurança.

Os principais nomes e suas propostas no pleito

Entre os favoritos para assumir o governo, destacam-se três figuras principais, todas com um histórico de posicionamentos firmes em questões militares e de segurança. Além do atual primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, do partido Likud, a oposição é representada por nomes de peso como Gadi Eisenkot e Naftali Bennett.

Gadi Eisenkot, ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas de Israel, é um ex-general que integrou o gabinete de guerra formado após 7 de outubro. Contudo, ele se desligou do governo Netanyahu, criticando abertamente a condução da operação militar na Faixa de Gaza. Eisenkot acusa Netanyahu de negligenciar o resgate de reféns e de não adotar medidas preventivas, mesmo ciente de alertas sobre a ação do Hamas. O primeiro-ministro, por sua vez, nega veementemente tais acusações, caracterizando a disputa como um embate sobre a responsabilidade e a eficiência governamental.

A outra força política proeminente é liderada por Naftali Bennett, do partido Juntos (Beyahad). Com um perfil religioso marcante, Bennett já ocupou o cargo de primeiro-ministro de Israel entre 2021 e 2022. Sua coalizão busca apresentar uma alternativa de direita que combine rigor em segurança com uma gestão mais coesa e menos polarizada do que a atual administração.

Posicionamentos sobre segurança e o Estado palestino

A analista Karina Stange Calandrin, professora de relações internacionais do Ibmec de São Paulo, explica que, em termos de segurança e política militar, os três candidatos favoritos demonstram grande similaridade. “Os três são de direita. Em termos de segurança, eles são bem parecidos. São partidos que a gente chama de falcões. Em Israel, os partidos são divididos entre falcões e pombas. Os falcões acreditam que se deve lidar com os inimigos de uma forma dura, que negociações e diplomacia não são o caminho para resolver os dilemas de Israel”, detalha Calandrin. Essa abordagem unificada reflete o consenso predominante na sociedade israelense pós-7 de outubro de que a segurança militar deve ser a prioridade máxima.

No que tange à criação de um Estado palestino, uma solução historicamente debatida e apoiada pelo direito internacional, todos os três partidos favoritos a assumir o poder em Tel Aviv rejeitam essa possibilidade. Karina Calandrin observa: “Hoje, na sociedade israelense, o Estado palestino perdeu muito apoio desde o 7 de outubro. Qualquer candidato que tenha a bandeira do Estado palestino não vai ganhar muitos votos”. Esta postura reflete uma mudança de humor público, onde a desconfiança e a percepção de ameaça se intensificaram.

O que se sabe até agora

As eleições em Israel estão focadas em segurança, com os principais candidatos adotando posturas linha-dura. Nenhum dos favoritos apoia a criação de um Estado palestino, e todos defendem o desarmamento do Hamas. As urnas, que operam com cédulas de papel, devem ter seus resultados divulgados apenas no final de amanhã.

Quem está envolvido

Os principais contendores são o atual primeiro-ministro Benjamin Netanyahu (Likud), o ex-chefe do Estado-Maior Gadi Eisenkot (Yashar) e o ex-primeiro-ministro Naftali Bennett (Juntos). Especialistas como Karina Stange Calandrin e Michel Gherman fornecem análises cruciais sobre as nuances de suas plataformas e impactos potenciais na região.

A questão dos assentamentos na Cisjordânia

Apesar do alinhamento em temas de segurança, existe uma divergência notável entre os candidatos quanto à expansão dos assentamentos na Cisjordânia. A especialista em política israelense ressalta que os partidos que compõem a atual coalizão de Netanyahu, especialmente os de ministros como Ben-Gvir e Smotrich, têm incentivado ativamente a expansão de assentamentos na Área B da Cisjordânia, o que é proibido pela legislação israelense e pelas convenções internacionais. Essa política tem sido apontada como um catalisador para o aumento da violência na região, onde colonos invadem terras palestinas e expulsam famílias sob a complacência do governo em exercício.

A professora Karina Calandrin avalia que, caso os adversários de Netanyahu vençam as eleições em Israel, é provável que haja uma desaceleração nessa política de expansão de assentamentos na Área B, o que poderia contribuir para uma redução da violência nos territórios. Essa mudança de abordagem representaria um alívio para a população palestina e uma potencial diminuição das tensões localizadas, embora não resolva as questões mais amplas do conflito. A comunidade internacional observa com atenção como o novo governo lidará com essa questão sensível.

Implicações internas e externas das eleições em Israel

O professor Michel Gherman, do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aponta que, apesar do perfil linha-dura compartilhado, Netanyahu se diferencia por representar uma extrema-direita com um projeto que Gherman descreve como autoritário para Israel. “As diferenças fundamentais têm a ver com a posição em relação à democracia representativa. O Netanyahu é a favor de uma reforma que tiraria a autonomia completa do Judiciário e concentraria o poder na mão do Executivo”, explica Gherman, sublinhando as preocupações com a concentração de poder e o impacto na separação de poderes no país.

Outra potencial mudança, segundo Calandrin, pode ser uma maior propensão a negociar com atores internacionais. Netanyahu tem rejeitado negociações com países como Catar e Egito em certos contextos. A ascensão de uma nova liderança poderia abrir caminho para uma diplomacia mais ativa e a busca por soluções mediadas, o que teria repercussões significativas para a estabilidade regional e a cooperação internacional. A dinâmica das alianças no Oriente Médio tem sido redefinida desde outubro de 2023, e o resultado das eleições em Israel pode consolidar ou alterar essas novas configurações.

Enquanto a votação ocorre, a agência de notícias Wafa, da Cisjordânia, relata casos contínuos de ataques de colonos e de forças de segurança de Israel em áreas ocupadas da Palestina, destacando a complexidade e a urgência dos desafios que o próximo governo enfrentará. Este cenário de conflito em tempo real sublinha a importância crítica das decisões tomadas pelos eleitores.

O que acontece a seguir

Os resultados das eleições em Israel devem ser conhecidos no final da quarta-feira. Em seguida, iniciam-se as complexas negociações para a formação de uma coalizão de governo, essencial para a governabilidade do país. A capacidade do próximo líder de unir forças políticas divergentes será crucial para enfrentar os desafios de segurança e estabilidade interna.

A complexa dinâmica geopolítica regional

A postura dos candidatos em relação aos palestinos também varia em nuances, conforme observado por Michel Gherman. Ele sugere que, enquanto Bennett pode ter uma posição mais alinhada com Netanyahu, especialmente por vir do mesmo partido Likud em sua trajetória política, Eisenkot poderia apresentar uma abordagem mais moderada. “Netanyahu é a favor de um Estado beligerante completo. Eisenkot é a favor de acordos, não com os palestinos neste momento, mas com os países árabes ao redor”, comenta Gherman, indicando uma possível abertura para alianças regionais que poderiam reconfigurar o tabuleiro diplomático do Oriente Médio.

Essa distinção é crucial, pois um foco em acordos com nações árabes vizinhas, em vez de negociações diretas com os palestinos no curto prazo, poderia reorientar a política externa de Israel. Tal estratégia pode buscar a normalização de relações com mais países árabes, seguindo o exemplo dos Acordos de Abraão, e fortalecer uma frente regional contra ameaças comuns, como o Irã. O resultado das eleições em Israel, portanto, influenciará diretamente a velocidade e a direção desses processos diplomáticos.

A formação do governo israelense é tradicionalmente um processo complexo, exigindo a construção de coalizões a partir de um parlamento fragmentado. As negociações pós-eleitorais serão intensas, com os líderes buscando maiorias parlamentares para formar um gabinete estável. A capacidade de articular essas alianças será um teste decisivo para o líder escolhido, que terá a responsabilidade de guiar Israel através de um período de profundas transformações e desafios geopolíticos sem precedentes. A instabilidade política interna, somada à volátil situação regional, demanda uma liderança com forte capacidade de articulação e governança.

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