Economia

Brasil: 1 ano fora do Mapa da Fome, desafios urgem

4 min leitura

A saída do Brasil do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas, concretizada há um ano, em julho, representa um marco significativo na luta contra a subnutrição no país. Este feito indica que menos de 2,5% da população se encontra em risco de subalimentação ou com acesso insuficiente à alimentação. Contudo, mesmo com o avanço que reduziu o risco de subnutrição, aproximadamente **6,5 milhões** de brasileiros ainda vivem em condição de insegurança alimentar grave. Este cenário complexo, que se desenrola em todo o território nacional, revela a urgência de manter e aprimorar as políticas públicas destinadas a erradicar a fome de forma definitiva.

Insegurança alimentar e a persistência dos desafios

Embora o Brasil tenha alcançado o menor patamar da série histórica de pessoas em risco de subnutrição, a presença de milhões em insegurança alimentar grave sublinha a complexidade do problema. A segurança alimentar, definida como o acesso regular, permanente e suficiente a alimentos saudáveis e de qualidade, é garantida a **77%** da população brasileira. Especialistas da Agência Brasil e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Combate à Fome enfatizam que a manutenção e melhoria desse resultado dependem da implementação de políticas públicas consistentes e permanentes.

O pesquisador Lucas de Almeida Moura, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Combate à Fome, vinculado à Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), ressalta a necessidade de estabelecer mecanismos que assegurem a continuidade das estratégias de sucesso. Segundo Moura, a saída do Mapa da Fome pela segunda vez é um reflexo de uma forte intersetorialidade nas políticas públicas. Ele defende que essa colaboração deve ser não apenas mantida, mas também aprimorada para garantir o acesso adequado à alimentação.

Compreendendo a multidimensionalidade da fome

O combate à insegurança alimentar vai além da mera oferta de alimentos. Envolve a criação e manutenção de uma estrutura abrangente que garante o acesso e a qualidade da alimentação. Isso inclui a asseguração de renda mínima, educação, acesso à água potável e esgotamento sanitário, segurança pública e oportunidades de emprego. Essa visão holística é fundamental para abordar as raízes profundas da fome e da subnutrição.

Lucas Moura é o autor de um estudo que desenvolveu um ponto de medição multidimensional para a insegurança alimentar no Brasil, conhecido como Índice Multidimensional de Insegurança Alimentar (MUFII, na sigla em inglês). A primeira edição deste índice foi lançada em janeiro, cobrindo o período de 2018 a 2022, e publicada na revista Sustainability. A pesquisa avalia a fome a partir de 12 indicadores de Desenvolvimento Sustentável, permitindo uma comparação anual detalhada.

Desigualdades regionais e o cenário em 2022

Os resultados do MUFII revelaram uma piora no cenário nacional em 2022. O estudo indicou que os menores valores médios de insegurança alimentar multidimensional foram observados em Santa Catarina, enquanto os maiores foram registrados no Maranhão, Acre e Amazonas. Os dados mostram que a maior parte dos estados das regiões do **Norte e Nordeste** do Brasil apresenta um nível acima de 50% de insegurança alimentar. A equipe de pesquisadores planeja atualizar o índice para os anos subsequentes a 2022, oferecendo uma visão contínua da situação.

As políticas públicas como pilar do enfrentamento

Valéria Burity, secretária Extraordinária de Combate à Pobreza e à Fome do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), destaca que a meta governamental é assegurar que todos os brasileiros tenham acesso a uma alimentação de qualidade, reconhecendo-a como um direito fundamental. Essa visão de longo prazo visa garantir o direito à alimentação adequada e saudável para toda a população.

Entre as ações mais impactantes para a redução da insegurança alimentar está o **Plano Brasil sem Fome**. Este plano articula um conjunto de medidas de política econômica e de proteção social. Ele incentivou a agricultura familiar, promoveu o reajuste na alimentação escolar, ofereceu apoio às cozinhas comunitárias e estabeleceu diretrizes para garantir proteção social, trabalho, renda e acesso a alimentos adequados. A prioridade atual, segundo a secretária, é integrar as populações ainda em risco de insegurança alimentar em políticas públicas, apoiando estados e municípios na replicação desses esforços.

Eixos estratégicos para combater a desigualdade

A professora Semíramis Domene, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e diretora do Instituto Fome Zero (IFZ), aponta três grandes movimentos que contribuíram para que os índices de fome no Brasil atingissem patamares mais baixos novamente. O primeiro é a diminuição da desigualdade, compreendendo que o acúmulo de riqueza e a disparidade social estão na raiz da fome. Combatê-los é o caminho essencial para superar essa condição.

As políticas de emprego e renda desempenharam um papel crucial nesse processo. Atualmente, o país registra o **menor índice de desemprego em 13 anos**, acompanhado de uma elevação do salário mínimo que alcançou reajustes superiores a **6% a partir de 2022**. Esses avanços são indicadores de sucesso na primeira dimensão do combate à desigualdade.

Uma segunda frente de atuação essencial foi o fortalecimento das políticas públicas de proteção social. Essas medidas são fundamentais para criar uma rede de apoio que impede que as famílias mais vulneráveis caiam em situação de extrema pobreza e insegurança alimentar, garantindo um mínimo de dignidade e acesso a recursos básicos. A professora Domene argumenta que estas ações, combinadas, pavimentam o caminho para um futuro onde a saída do Mapa da Fome se torne uma realidade duradoura e inquestionável.

O caminho contínuo para a segurança alimentar

Apesar de ter celebrado um ano fora do Mapa da Fome, o Brasil se encontra diante da persistente missão de assegurar a todos os seus cidadãos o direito inalienável a uma alimentação adequada. A manutenção dessa conquista histórica e a erradicação completa da insegurança alimentar exigem um compromisso contínuo com a intersetorialidade, o investimento em políticas sociais robustas e o monitoramento constante das desigualdades regionais. O futuro do combate à fome no país depende da capacidade de transformar os progressos atuais em um legado permanente de dignidade e acesso universal a alimentos nutritivos e de qualidade.

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