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Crise em Havana: Moradores relatam colapso no dia a dia

6 min leitura

A crise em Havana atinge níveis alarmantes, com residentes da capital cubana descrevendo a situação atual como o “pior momento já vivido” no país. As dificuldades são intensificadas pelo endurecimento do bloqueio energético imposto pelos Estados Unidos, que se agravou desde o final de janeiro. Este cenário resultou em uma severa deterioração do cotidiano, marcada por longos apagões, aumento drástico nos preços de bens essenciais, redução no transporte público e diminuição da oferta da cesta básica subsidiada pelo Estado.

O agravamento da crise energética em Havana

A população de Havana enfrenta uma escalada sem precedentes na frequência e duração dos cortes de energia. Ivón B. Rivas Martinez, arquiteta de 40 anos e mãe solo, relatou à Agência Brasil a imprevisibilidade que domina a vida na cidade. Enquanto antes os apagões eram programados para cerca de quatro a cinco horas diárias, a realidade atual é de total incerteza. “Hoje houve 12 horas de apagão”, desabafou Ivón, ilustrando o caos que se instalou na rotina dos cubanos.

Essa falta de planejamento impede qualquer organização básica, transformando tarefas simples em desafios monumentais. A capital, que historicamente gozava de certa preferência energética, agora padece sob o mesmo regime de interrupções severas que afetam o restante da ilha.

O impacto do bloqueio dos Estados Unidos

A intensificação da crise em Havana está diretamente ligada às ações da administração Donald Trump. Desde o final de janeiro, o governo estadunidense ameaçou impor tarifas a países que comercializassem petróleo com Cuba, classificando a nação caribenha como uma “ameaça incomum e extraordinária” à segurança dos EUA. Essa justificativa, baseada no alinhamento político de Havana com Rússia, China e Irã, estrangulou ainda mais as já limitadas opções de Cuba para adquirir combustíveis.

As medidas, somadas a um bloqueio naval à Venezuela programado para o final de 2025, limitam drasticamente o acesso cubano ao mercado global de petróleo. Com cerca de 80% da energia do país gerada por termelétricas dependentes de combustíveis, o impacto dessas restrições é catastrófico para a infraestrutura energética da ilha.

Cotidiano em colapso: de serviços a preços

Os apagões generalizados afetam uma gama de serviços essenciais na capital. Ivón Rivas descreve como a falta de eletricidade paralisa a vida urbana: “Quando você tenta sacar dinheiro no banco, se não há eletricidade, os caixas eletrônicos não funcionam. Se você precisa realizar algum tipo de procedimento legal e o cartório não tem energia, eles não conseguem trabalhar. É muito difícil”. A interrupção no fornecimento de água, que depende de bombas elétricas, e a falha em serviços de telefonia e internet completam o quadro de paralisação.

Além dos serviços, a crise em Havana elevou os preços de produtos básicos a patamares insustentáveis. “Nessas últimas semanas, a diferença é que os preços aumentaram em um ritmo muito mais acelerado do que antes”, observou Ivón. Alimentos como arroz, óleo e carne de frango, pilares da alimentação cubana, tornaram-se consideravelmente mais caros, aprofundando a insegurança alimentar da população.

O que se sabe sobre a situação atual?

Cuba enfrenta seu momento mais crítico na memória recente, com a **crise em Havana** evidenciando um colapso infraestrutural e social. A escalada do bloqueio energético dos EUA provocou uma severa escassez de combustíveis, resultando em apagões prolongados e imprevisíveis. Isso impacta desde serviços básicos como água e internet até o acesso a dinheiro e procedimentos legais, além de impulsionar a inflação de alimentos essenciais, como arroz, óleo e frango.

Um período mais desafiador que o "período especial"

Feliz Jorge Thompson Brown, economista cubano aposentado de 71 anos e tio de Ivón, compara a atual conjuntura com a década de 1990, conhecida como “período especial”. Naquele tempo, a queda do bloco socialista soviético privou Cuba de seus principais parceiros comerciais, gerando uma crise profunda. No entanto, Feliz Jorge avalia que o momento presente é ainda mais grave. “Este é o momento mais difícil que o país já enfrentou. A situação energética é muito grave. É [o momento] mais cruel e severo do que durante o período especial, tanto material, quanto espiritualmente mais desafiador”, afirmou o morador de Havana.

A percepção de Feliz Jorge ressalta não apenas a dimensão material da escassez, mas também o desgaste psicológico e a perda de esperança que permeiam a sociedade cubana. A crise em Havana, portanto, transcende o aspecto econômico, atingindo a resiliência e a moral coletiva.

Quem são os mais afetados pela crise?

Os mais afetados pela crise em Havana e em todo o país são os cidadãos comuns, como Ivón Rivas, mãe solo que precisa equilibrar a vida profissional com a criação do filho em meio à incerteza dos apagões. Idosos, como Feliz Jorge Brown, que vivenciaram outros momentos difíceis, expressam a gravidade inédita da situação. Residentes do interior da ilha, com quase 11 milhões de habitantes, enfrentam condições ainda piores, com cortes de energia que duram quase o dia inteiro, dificultando o armazenamento de alimentos e o acesso a bens essenciais.

Desafios além da capital: o interior da ilha

Embora a crise em Havana seja alarmante, a situação nas províncias do interior de Cuba é ainda mais precária. Nesses locais, os apagões podem estender-se por quase um dia inteiro, impondo desafios ainda maiores à subsistência da população. Ivón Rivas compartilhou o exemplo de sua tia, que reside no interior e precisa sair diariamente para comprar os alimentos para consumo imediato, pois a falta de eletricidade impossibilita o armazenamento de comida por mais tempo. “No interior do país, quase o dia inteiro ficava sem eletricidade”, complementou Ivón, destacando a disparidade regional na severidade da crise.

Esta realidade no interior ilustra o quão profundamente a escassez de energia afeta a vida cotidiana, forçando adaptações extremas e expondo as vulnerabilidades de um sistema dependente de uma infraestrutura cada vez mais frágil e de recursos limitados.

Quais as perspectivas diante da escassez?

Diante do agravamento da crise em Havana e em todo o território cubano, as perspectivas são de incerteza crescente. A capacidade do Estado em prover a cesta básica subsidiada tem diminuído, e a população mais jovem, que não vivenciou plenamente os primeiros anos da Revolução, pode ter maior dificuldade em compreender e enfrentar as adversidades. A continuidade do bloqueio energético e a dependência de combustíveis importados sugerem que o cenário de escassez e dificuldades persistirá, exigindo resiliência e a busca por soluções inovadoras para a sobrevivência diária.

A perda de capacidade do estado e a incerteza futura

Feliz Jorge Brown aponta outra diferença crucial entre a crise atual e o “período especial”: a capacidade do Estado cubano. Na década de 1990, apesar das adversidades, havia uma juventude mais conectada aos avanços sociais da Cuba revolucionária, o que gerava um entendimento coletivo maior da situação. “No período especial, as pessoas compreendiam toda a situação e sua magnitude. Hoje, há alguma incerteza porque muitos não vivenciaram plenamente os primeiros anos da Revolução”, explicou o economista.

Atualmente, o Estado demonstra uma perda de capacidade em comparação com a década de 1990, especialmente na provisão da cesta básica de alimentos subsidiada. Essa diminuição da rede de proteção social agrava a vulnerabilidade da população e amplifica o impacto da crise em Havana e no restante do país, deixando os cidadãos em uma posição ainda mais desamparada diante da escassez.

A economia cubana sob pressão constante

A economia cubana, intrinsecamente ligada à importação de combustíveis para suas termelétricas, opera sob imensa pressão. As sanções e o bloqueio energético não apenas dificultam a compra de petróleo no mercado global, mas também desestimulam parceiros internacionais a se envolverem em transações com a ilha, por medo de retaliações. Essa dinâmica limita severamente as opções de Cuba para garantir seu suprimento energético, perpetuando o ciclo de apagões e escassez que caracteriza a crise em Havana.

A dependência de uma matriz energética baseada em combustíveis fósseis, aliada à vulnerabilidade geopolítica, expõe a ilha a choques externos cada vez mais intensos. A busca por alternativas e a diversificação da economia tornam-se imperativos para mitigar os efeitos de longo prazo dessas pressões externas.

Entre a resiliência histórica e o limite da subsistência

A crise em Havana, conforme relatado pelos seus moradores, configura um dos capítulos mais difíceis da história contemporânea de Cuba. A população, conhecida por sua resiliência e capacidade de adaptação, encontra-se agora em um ponto de exaustão, onde a inventividade e a solidariedade diárias são postas à prova por uma escassez implacável. O futuro da ilha dependerá da capacidade de enfrentar não apenas as pressões externas, mas também os desafios internos de uma sociedade que busca manter sua dignidade e esperança em meio a um cotidiano de incertezas e privações profundas.

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