Nesta quinta-feira, a demógrafa Elza Berquó, ícone dos estudos populacionais no Brasil, faleceu em São Paulo aos 100 anos. Sua partida marca o fim de uma trajetória dedicada à análise e compreensão das complexas transformações demográficas brasileiras, deixando um legado inestimável para a ciência e a sociedade. Cientista renomada e professora, com formação inicial em Matemática, Elza Berquó atuou por décadas na desmistificação de dados censitários e demográficos, fornecendo alicerces para a compreensão do país.
A contribuição de Elza Berquó se estendeu muito além da academia, influenciando diretamente a formulação de políticas públicas e a conscientização sobre direitos humanos. Ela foi uma voz incansável na defesa do acesso a métodos contraceptivos, do direito ao aborto seguro e da promoção dos direitos reprodutivos de forma informada para toda a população. Seu rigor acadêmico, combinado a um profundo compromisso político e social, foi uma marca distintiva de sua atuação, como destacou Jacqueline Pitanguy, fundadora da ONG Cepia Cidadania, em entrevista à Rádio Nacional.
Uma trajetória de rigor acadêmico e compromisso social
Nascida em Guaxupé, Minas Gerais, a jornada educacional de Elza Berquó foi tão robusta quanto sua carreira. Ela iniciou seus estudos em Matemática na Universidade Católica de Campinas, consolidando sua base analítica. Posteriormente, aprofundou-se em Estatística, concluindo seu mestrado pela Universidade de São Paulo (USP) em 1949. Seu compromisso com o avanço do conhecimento a levou aos Estados Unidos, onde realizou uma especialização em Bioestatística na Columbia University no ano seguinte. Essa formação multidisciplinar permitiu-lhe desenvolver uma abordagem única para os desafios demográficos.
O impacto de Elza Berquó nos estudos populacionais brasileiros começou a se solidificar em 1965, quando sua análise do desenvolvimento da população paulista, baseada nos censos de 1940 e 1950, trouxe novas perspectivas. Trabalhando na Faculdade de Saúde Pública da USP, sua visão crítica e seu alinhamento com pautas progressistas resultaram em uma aposentadoria compulsória em 1968, um reflexo do período político conturbado. No entanto, essa interrupção forçada não a deteve; pelo contrário, impulsionou-a para novas frentes de ação e articulação.
Fundação de instituições chave para a demografia nacional
A capacidade articuladora de Elza Berquó foi fundamental para a criação de alguns dos mais importantes centros de pesquisa da América Latina, essenciais para compreender as transformações do Brasil. No ano seguinte à sua aposentadoria forçada, em 1969, ela participou ativamente da fundação do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Esse instituto surgiu como um bastião da intelectualidade brasileira em um período de repressão, reunindo nomes como Fernando Henrique Cardoso, Octávio Ianni e José Arthur Giannotti, que, assim como Elza Berquó, resistiam às tentativas da ditadura de silenciar o pensamento crítico.
Sua visão pioneira também se manifestou na cofundação do Núcleo de Estudos de População da Unicamp (Nepo-Unicamp). O Nepo se tornou um epicentro para os estudos demográficos, e a relevância de Elza Berquó foi eternizada quando a instituição passou a levar seu nome em 2014. José Marcos Cunha, ex-coordenador do Nepo, ressaltou: “Elza é a história da demografia no Brasil e, particularmente, da Unicamp, que se tornou pioneira nos estudos na área e abriu um flanco importante para o desenvolvimento da pesquisa e do ensino.”
Não apenas no âmbito acadêmico, mas também na esfera governamental, Elza Berquó deixou sua marca. Em 1995, ela fundou e presidiu a Comissão Nacional de População e Desenvolvimento (CNPD), um órgão federal com a crucial missão de assessorar decisões estratégicas no campo populacional. Essa atuação demonstra seu compromisso em traduzir o conhecimento científico em ações concretas que pudessem beneficiar a sociedade brasileira.
A voz pela autonomia e direitos reprodutivos
Ao longo de sua vida, Elza Berquó foi uma defensora incansável dos direitos humanos e da autonomia individual, especialmente no que tange à saúde reprodutiva. Ela argumentava pela importância do acesso irrestrito e informado a métodos contraceptivos, pelo direito ao aborto legal e seguro, e pela garantia dos direitos reprodutivos para toda a população. Seu trabalho desafiou tabus e trouxe à tona discussões cruciais sobre mortalidade infantil, sempre com uma base de dados sólida e rigor científico.
Sua capacidade de “ver pessoas atrás dos números”, como apontou Richarlls Martins, presidente da CNPD, transformou a análise demográfica em uma ferramenta para a promoção da justiça social. Elza Berquó acreditava profundamente no Brasil e na necessidade de políticas públicas embasadas em evidências para ampliar os direitos de todas as pessoas, defendendo a democracia em sua plenitude por todo o seu centenário de vida.
O impacto duradouro de uma pioneira
O legado de Elza Berquó é multifacetado, abrangendo a formação de gerações de cientistas, a criação e fortalecimento de instituições essenciais e a defesa intransigente de pautas sociais. Gláucia Marcondes, cientista social, antropóloga e atual coordenadora do Nepo, expressou o sentimento da comunidade acadêmica: “Hoje é um dia triste porque perdemos uma mulher fantástica, uma cientista inspiradora. Mas, ao olhar para a vida de Elza, celebramos suas conquistas, as pessoas que ela formou, as instituições que criou e sua trajetória incrível.”
A influência de Elza Berquó se estende à Associação Brasileira de Estudos Populacionais (ABEP), instituição que também ajudou a fundar. Eduardo Rios Neto, acadêmico que trabalhou com ela na ABEP, sintetizou sua importância: “Elza é a mãe da demografia brasileira, teve uma trajetória excepcional no desenvolvimento de instituições relevantes na área, como a criação da ABEP, do NEPO e da Comissão Nacional de População e Desenvolvimento do Governo Federal (CNPD).” A visão de Elza Berquó sobre o Brasil, sua urbanização e as transformações sociais que moldaram o país entre as décadas de 1960 e 2000 continua sendo um farol para pesquisadores e formuladores de políticas públicas.
A ressonância de um legado que segue moldando o Brasil
A partida de Elza Berquó deixa um vazio, mas também uma herança intelectual e moral que transcende sua existência. Seus estudos sobre a população brasileira continuam a ser pilares para a compreensão dos desafios e oportunidades do país. As instituições que ela ajudou a erguer permanecem ativas, propagando o conhecimento e a metodologia que ela tanto valorizava. A memória de Elza Berquó, a demógrafa que viu mais que números, mas sim as vidas e direitos por trás deles, servirá de inspiração para futuras gerações de pesquisadores e ativistas que buscam um Brasil mais justo, equitativo e consciente de sua própria dinâmica populacional.





