Saúde

Doença falciforme: entenda impactos além da anemia

4 min leitura

A doença falciforme, uma condição genética e hereditária que afeta até 100 mil brasileiros, segundo estimativa do Ministério da Saúde, representa um desafio de saúde pública muito mais abrangente do que a comum percepção de uma simples anemia. Identificada como uma patologia sistêmica, ela vai além da deficiência de glóbulos vermelhos, impactando múltiplos órgãos e sistemas do corpo humano.

A hematologista Marimília Pita, em entrevista à Agência Brasil, esclareceu os mitos e complexidades associados à doença falciforme. “Todo doente falciforme é anêmico. A doença falciforme é uma doença sistêmica que afeta todos os órgãos. Ela é genética, hereditária e passada de pais para filhos”, resumiu a especialista. Sua atuação abrange a oncohematologia pediátrica e a fundação do Comitê de Hematologia Pediátrica da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH), além de ser criadora da ONG Lua Vermelha, dedicada à conscientização sobre a condição.

A forma das hemácias e suas consequências

A base da doença falciforme reside em uma alteração nas hemácias, as células sanguíneas responsáveis pelo transporte de oxigênio aos tecidos. Em indivíduos afetados, as hemácias perdem seu formato discóide e flexível, semelhante a um grão de feijão, e assumem uma aparência alongada, em forma de foice – daí o termo falciforme. Essa mudança morfológica desencadeia uma série de complicações.

As hemácias em forma de foice são mais rígidas e têm uma vida útil drasticamente reduzida. Enquanto uma célula normal dura cerca de 120 dias, as hemácias falciformes se quebram em apenas 20, 30 ou até 80 dias, resultando em anemia crônica. Além disso, a rigidez e a forma alongada dessas células as tornam propensas a entupir os vasos sanguíneos menores, dificultando o fluxo e o transporte de oxigênio. Essa obstrução leva a “microinfartos” em diversas partes do corpo.

Com o tempo, a repetição desses eventos causa danos progressivos aos órgãos. Pacientes com doença falciforme podem desenvolver problemas cardíacos (cardiopatia), pulmonares (pneumopatia), renais (nefropatia) e oculares, entre outros. A área sem suprimento sanguíneo e oxigênio sofre um infarto, e a função do órgão diminui, comprometendo a saúde geral do indivíduo ao longo da vida.

O impacto da dor e a importância do diagnóstico precoce

Um dos sintomas mais debilitantes da doença falciforme são as crises de dor intensa. Elas ocorrem devido à obstrução de pequenos vasos sanguíneos pelas hemácias falciformes, impedindo a circulação adequada. A dor é frequentemente localizada nos ossos e articulações, mas pode afetar qualquer parte do corpo. Em crianças pequenas, mãos e pés podem inchar e ficar avermelhados, acompanhados de dor aguda, um sinal característico da doença.

A intensidade dessas crises pode ser tão severa que muitos pacientes necessitam de internação hospitalar e medicação potente, como a morfina. Contudo, a hematologista Marimília Pita lamenta a falta de preparo de alguns profissionais de saúde para lidar com esse quadro de dor aguda no Brasil. Um estudo internacional com 2 mil pacientes, incluindo 260 brasileiros, revelou que apenas 34% dos pacientes do Brasil receberam morfina durante as crises de dor, em contraste com 98% nos Estados Unidos e 99% no Canadá. Essa disparidade evidencia um sofrimento desnecessário e a necessidade de melhorias no manejo da dor.

Felizmente, a detecção da doença falciforme pode ocorrer muito cedo. Há 25 anos, o Ministério da Saúde incluiu a pesquisa de hemoglobina, capaz de identificar a condição, no Teste do Pezinho. Este exame é obrigatório e gratuito para todos os recém-nascidos no Brasil. O diagnóstico precoce, ainda na maternidade, é crucial para uma evolução mais tranquila do paciente, permitindo a prevenção de infecções – uma das principais causas de morte em crianças com a doença antes dos 7 anos.

Tratamento e perspectivas futuras

Na maioria dos casos, a doença falciforme não possui cura, mas seus sintomas podem ser atenuados e gerenciados com um acompanhamento médico contínuo e tratamento adequado. Isso inclui a prevenção de crises, o manejo da dor e a administração de medicamentos que podem reduzir a frequência e a gravidade dos eventos relacionados à doença. A adesão ao tratamento e a educação sobre a condição são fundamentais para a qualidade de vida dos pacientes.

Em situações específicas, o tratamento curativo é possível através do transplante de medula óssea. No entanto, esse procedimento exige que o paciente atenda a critérios rigorosos de elegibilidade e, mais importante, encontre um doador compatível. As constantes pesquisas na área buscam expandir as opções de tratamento e cura, oferecendo esperança a um número crescente de pacientes com a doença falciforme.

Conscientização em foco: um passo para a mudança

Neste dia 19 de junho, celebra-se o Dia Mundial de Conscientização sobre a Doença Falciforme. A data, estabelecida pela Organização das Nações Unidas (ONU), tem como objetivo principal dar visibilidade a essa condição genética, combater o preconceito e melhorar o acesso a diagnósticos precisos e a tratamentos eficazes em todo o mundo. A conscientização pública é vital para garantir que pacientes recebam o cuidado e o suporte necessários.

Iniciativas como a da ONG Lua Vermelha, liderada pela Dra. Marimília Pita, desempenham um papel crucial na educação da sociedade e na advocacy pelos direitos dos pacientes. O reconhecimento da complexidade da doença falciforme e a quebra de estigmas são passos essenciais para que os indivíduos afetados possam ter uma vida mais plena e com acesso irrestrito aos avanços da medicina e aos cuidados humanizados.

Desafios persistentes e a jornada por equidade no tratamento

A jornada para os pacientes com doença falciforme, embora avanços importantes tenham sido feitos, ainda é permeada por desafios significativos. A disparidade no tratamento da dor, conforme os dados do estudo internacional indicam, sublinha a urgência de capacitação e sensibilização dos profissionais de saúde para as necessidades específicas dessa população. A falha em gerenciar adequadamente a dor não apenas causa sofrimento imediato, mas também pode levar a uma piora clínica a longo prazo.

Melhorar a educação médica, otimizar protocolos de tratamento da dor e assegurar o acesso universal ao diagnóstico precoce são metas prioritárias. Além disso, a contínua pesquisa sobre novas terapias e a expansão da elegibilidade para tratamentos curativos, como o transplante de medula, são fundamentais para transformar a realidade de milhares de pessoas impactadas pela doença falciforme, garantindo-lhes uma vida com mais dignidade e saúde.

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