Economia

Ocupação de pessoas 60+ em alta: desafios e informalidade

4 min leitura

A ocupação de pessoas 60+ no mercado de trabalho brasileiro disparou 53% nos últimos dez anos, superando o ritmo de crescimento populacional desse grupo. Esta ascensão, revelada por um estudo da empresa Nexus, contrasta com a preocupante predominância da informalidade nestas novas posições, indicando uma precarização para aqueles que, em tese, deveriam estar usufruindo da aposentadoria.

O fenômeno, que reflete uma nova dinâmica demográfica e econômica no país, posiciona o Brasil diante de um cenário de envelhecimento ativo, mas com sérios desafios em termos de dignidade e segurança trabalhista. A busca por sustento ou complemento de renda leva muitos idosos a permanecerem em atividade, muitas vezes em condições vulneráveis.

Crescimento recorde e a demografia do trabalho sênior

Nos últimos dez anos, o contingente de trabalhadores com 60 anos ou mais avançou de 5,7 milhões para quase 8,8 milhões. Paralelamente, a população geral de idosos no Brasil cresceu 37%, de 25,8 milhões para 35,2 milhões, entre 2016 e 2025. Esses dados, compilados pela Nexus, mostram que o emprego entre os mais velhos não apenas acompanha, mas excede o ritmo de envelhecimento da população.

Ao fim de 2025, uma em cada quatro (25%) pessoas acima de 60 anos estava ocupada, um aumento notável em relação à taxa de 22% registrada em 2016. Esse é o maior índice para o grupo nesta década. Em comparação, a população geral do país cresceu 5% no período, passando de 203,2 milhões para 212,6 milhões, enquanto o número total de empregos expandiu-se 14,6%.

O que se sabe até agora sobre o mercado sênior

O Brasil observa um crescimento sem precedentes na `ocupação de pessoas 60+`, com um aumento de 53% em dez anos. Este movimento é impulsionado por fatores demográficos e econômicos, incluindo a necessidade de complemento de renda e o impacto de reformas previdenciárias. Contudo, essa expansão vem acompanhada de altos índices de informalidade, levantando preocupações sobre a precarização do trabalho para este grupo.

A dupla face do envelhecimento ativo no trabalho

Marcelo Tokarski, CEO da Nexus, descreve o cenário como um “copo meio cheio, meio vazio”. Ele celebra a capacidade ativa de trabalho de pessoas com 60, 70 anos ou mais. No entanto, o otimismo é temperado pela realidade da precarização, especialmente para aqueles que, com 75 anos, por exemplo, deveriam estar desfrutando da aposentadoria, mas precisam continuar trabalhando para complementar a renda.

Essa ambivalência reflete uma transição complexa na estrutura social e econômica do país. Enquanto alguns celebram a longevidade produtiva, outros questionam as condições sob as quais essa produtividade é exercida, destacando a falta de proteção social e direitos trabalhistas.

Quem está impulsionando e analisando essa tendência

A tendência de aumento na `ocupação de pessoas 60+` é impulsionada pela própria dinâmica demográfica brasileira, que aponta para uma população mais envelhecida. A análise detalhada é realizada pela empresa de pesquisa e inteligência de dados Nexus, que baseia seus estudos na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, conduzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O CEO da Nexus, Marcelo Tokarski, oferece as principais perspectivas sobre os dados.

Metodologia e os diferentes tipos de trabalho

O levantamento da Nexus, fundamentado na Pnad Contínua do IBGE, abrange todas as formas de ocupação para pessoas com 14 anos ou mais. Isso inclui trabalho com ou sem carteira assinada, temporário e por conta própria. Para o IBGE, uma pessoa é considerada desocupada apenas se efetivamente procurou uma vaga, o que reflete a pressão por engajamento no mercado de trabalho, independentemente das condições.

A abrangência da pesquisa permite uma visão holística do comportamento do mercado, destacando as nuances da inserção de diferentes faixas etárias. A metodologia robusta oferece um panorama fidedigno da realidade vivenciada pelos trabalhadores em todo o país, evidenciando as particularidades da `ocupação de pessoas 60+`.

O impacto da reforma da previdência de 2019

A reforma da Previdência, implementada em 2019, é apontada por Marcelo Tokarski como um dos fatores que contribuem para o aumento da `ocupação de pessoas 60+`. As mudanças elevaram a idade mínima e o tempo de contribuição exigidos para a aposentadoria, forçando muitos a prolongar suas jornadas de trabalho.

Para mulheres, a idade mínima passou para 62 anos com 15 anos de contribuição. Para homens, a exigência é de 65 anos e 20 anos de contribuição. Antes da reforma, mulheres podiam se aposentar com 60 anos, e não havia idade mínima para aposentadoria por tempo de contribuição para ambos os sexos. Essa alteração direta nas regras previdenciárias impactou profundamente a decisão de muitos de permanecerem ativos no mercado.

A predominância da informalidade entre os mais velhos

Um dos achados mais críticos do estudo da Nexus é a prevalência da informalidade entre os trabalhadores com 60 anos ou mais. Mais da metade (53%) desses profissionais estão em posições informais, um índice superior ao da população geral (38%) e até mesmo ao dos jovens de 18 a 24 anos (41%).

O IBGE classifica como informais os empregados sem carteira assinada e os autônomos sem CNPJ. Trabalhadores nessa condição não têm acesso a direitos fundamentais como férias remuneradas, contribuição para a Previdência Social e décimo terceiro salário. Esta ausência de proteção social é o cerne da precarização do trabalho para este grupo etário.

Marcelo Tokarski ressalta que a informalidade é uma característica estrutural da `ocupação de pessoas 60+`. Diferente dos jovens, que muitas vezes podem se dedicar aos estudos ou buscar a vaga ideal, o idoso frequentemente não pode se dar ao luxo de permanecer desocupado e, portanto, migra rapidamente para a informalidade, aceitando condições menos favoráveis para garantir sua subsistência.

O que acontece a seguir com a longevidade ativa

O futuro da `ocupação de pessoas 60+` dependerá crucialmente da implementação de políticas públicas. A necessidade de incentivos à formalização e uma revisão urgente das estruturas corporativas são pautas essenciais. O objetivo é garantir que o envelhecimento ativo seja acompanhado de dignidade, ergonomia adequada, benefícios justos e inclusão geracional efetiva, evitando a precarização contínua deste segmento populacional.

Políticas públicas para a dignidade no trabalho 60+

A sustentabilidade econômica do país, frente ao crescente número de idosos no mercado, exige uma nova abordagem das políticas públicas. A Nexus conclui que é imperativo criar incentivos à formalização e promover uma revisão das estruturas corporativas. Isso inclui adaptar as condições de trabalho com ergonomia, oferecer benefícios adequados e fomentar a inclusão geracional, assegurando que a longevidade produtiva seja sinônimo de bem-estar e direitos garantidos.

Este desafio transcende a esfera individual, demandando uma resposta coordenada entre governo, empresas e sociedade para construir um futuro onde a experiência e a capacidade dos trabalhadores 60+ sejam valorizadas e protegidas, evitando que a necessidade de trabalhar se transforme em uma fonte de vulnerabilidade social.

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