A ascensão da China na África marca uma redefinição substancial nas relações internacionais do continente, impulsionando seu desenvolvimento e reconfigurando o cenário geopolítico global. Nesta semana, enquanto o Dia da África é celebrado, nações africanas intensificam parcerias estratégicas com Pequim para impulsionar o crescimento, especialmente em infraestrutura de transporte, energia e indústrias. Essa crescente colaboração tem gerado uma dinâmica competitiva com potências ocidentais como os Estados Unidos e a Rússia, que também buscam ampliar sua influência na região. O continente africano, com sua vasta riqueza natural e uma população jovem em rápido crescimento, emerge como um polo estratégico indispensável no século XXI.
África estratégica: o epicentro de novas parcerias globais
O deslocamento do centro da economia global da Europa e dos Estados Unidos para a Ásia, catalisado pela ascensão da China, tem transformado profundamente os países africanos. O gigante asiático consolidou-se como o principal parceiro comercial da África por um longo período, com um volume de comércio que atingiu US$ 295 bilhões em 2024, representando um aumento de 6% em relação ao ano anterior. Esse intercâmbio comercial robusto é um reflexo das necessidades africanas de desenvolvimento e da busca chinesa por novos mercados e recursos, estabelecendo uma relação de codependência benéfica para ambas as partes.
Com uma população de aproximadamente 1,5 bilhão de habitantes, sendo 60% com idade inferior a 25 anos, a África representa um mercado consumidor vasto e uma força de trabalho em potencial. A parceria com a China, principal parceiro comercial há 17 anos, é evidenciada por projetos como o Parque Industrial PK24, localizado nos arredores de Abdjan, capital da Costa do Marfim. Essa infraestrutura, parcialmente construída pela China Light Industry Nanning Design Engineering, simboliza um avanço significativo para a industrialização local. O Observatório da China, de Portugal, destacou que a unidade possui capacidade para processar 50 mil toneladas de cacau anualmente e armazenar 140 mil toneladas, representando um marco na cadeia de valor global do cacau.
A cooperação sino-africana vai além da indústria. Eden Pereira Lopes da Silva, pesquisador do Núcleo de Estudos Sobre África, Ásia e Relações Sul-Sul (NIEAAS), explicou à Agência Brasil que os projetos chineses são projetados para conectar zonas cruciais dentro do continente. “Não são projetos apenas de cooperação industrial, mas também, sobretudo, áreas que, no futuro, possam ser usadas para integrar uma grande rede de corredores comerciais que os chineses estão planejando, principalmente por via marítima por meio de grandes portos, além de renovação de ferrovias”, detalhou o historiador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
O que se sabe sobre a parceria China-África?
A China consolidou-se como o principal parceiro comercial da África por 17 anos consecutivos, impulsionando o desenvolvimento do continente com investimentos substanciais em infraestrutura de transporte, energia e parques industriais. Projetos estratégicos visam não apenas o crescimento econômico local, mas também a integração em amplas redes de corredores comerciais marítimos e ferroviários, conectando o continente globalmente.
Investimentos massivos e a rota da seda africana
Em 2025, o continente africano assumiu a liderança como principal destino dos investimentos chineses no âmbito da Nova Rota da Seda, um projeto ambicioso de Pequim para integrar o comércio com mais de 150 nações. Do total de US$ 213 bilhões investidos globalmente no ano passado, uma parcela significativa de US$ 61,2 bilhões foi direcionada à África, conforme dados de 2025. Esse montante representa um crescimento extraordinário de 283% em comparação com o período anterior, evidenciando a prioridade estratégica que o continente ocupa para os interesses chineses.
A organização de pesquisas The Green Finance & Development Center, de Xangai, calculou que os países com maior engajamento em projetos de construção foram a Nigéria, com investimentos de US$ 24,6 bilhões, e a República do Congo, com US$ 23,1 bilhões. Esses números reforçam a magnitude da presença chinesa e a sua orientação para projetos de grande escala que transformam a paisagem infraestrutural dos países parceiros. A estratégia chinesa na África é multifacetada, abrangendo desde a construção de portos modernos até a modernização de ferrovias, criando uma rede logística que facilita o comércio e a movimentação de mercadorias em todo o continente.
Quem são os principais atores e o que impulsiona essa cooperação?
As lideranças africanas buscam autonomia, encontrando na China um parceiro com abordagem diplomática e econômica, que contrasta com potências ocidentais. Pesquisadores indicam que a China, diferentemente de antigos colonizadores, oferece um modelo de negociação onde a África define suas prioridades de investimento, impulsionando relações mais equitativas.
Uma diplomacia diferenciada: autonomia e negociação
Elga Lessa de Almeida, professora de relações internacionais da Universidade Federal da Bahia (UFBA), avalia que a China se posiciona como um parceiro mais vantajoso para a África em comparação com as potências europeias, marcadas por um histórico colonial, ou com os próprios Estados Unidos. Segundo a especialista, “a China chega através de uma presença que é mais diplomática, mais a partir da economia, do que uma presença mais imposta militarmente, como é mais a presença dos EUA”, destacando uma diferença fundamental na abordagem das grandes potências.
Em suas pesquisas e entrevistas realizadas em Moçambique e Angola, a professora Elga Lessa relata que interlocutores africanos frequentemente afirmam que os chineses, nos negócios, não impõem onde o dinheiro deve ser investido. “São os africanos que vão dizer o que precisam e a China avalia se concede ou não o aporte financeiro. É uma forma de dar mais autonomia para as lideranças africanas”, acrescentou, sublinhando um modelo de cooperação que respeita as prioridades e necessidades locais, conferindo maior poder de decisão aos países do continente.
A relação da China com Angola serve como um exemplo ilustrativo dessa dinâmica. Após a guerra civil (1975-2002), que devastou a antiga colônia portuguesa, o país buscou financiamento para sua reconstrução. Com a recusa de empréstimos por parte das nações europeias, Angola recorreu à China, firmando um acordo de financiamento pago por meio do petróleo angolano. Por anos, mais de 60% do total do petróleo de Angola era destinado ao gigante asiático. “Essa relação, durante muito tempo, foi uma relação de dependência. Só que Angola começou a ter um planejamento de pagamento, e a dívida foi reduzindo-se bastante. O país criou consciência de que precisava sair da dependência do petróleo”, pontuou a professora Elga Lessa, demonstrando a evolução das relações e a busca por diversificação econômica.
Além de Pequim: a crescente influência russa no continente
Além da crescente influência da China na África, outro parceiro tem se destacado nos últimos anos: a Rússia. Segundo o pesquisador Eden Pereira, a Rússia tem conseguido se posicionar à frente dos Estados Unidos em algumas esferas de suas relações com o continente, diversificando ainda mais o leque de opções estratégicas para os países africanos. A África enfrenta uma significativa carência em infraestrutura energética, o que a torna um alvo para investimentos estrangeiros focados nesse setor. Tanto a China quanto a Rússia têm investido pesadamente no desenvolvimento de centrais elétricas e, mais recentemente, em energia nuclear.
A Rússia, em particular, tem demonstrado um interesse crescente na energia nuclear africana, firmando acordos importantes. “A Rússia, recentemente, fez acordos com Etiópia para desenvolver usina nuclear”, informou Eden Pereira. Essa diversificação de parcerias estratégicas permite aos países africanos negociar em uma posição de maior força, buscando os termos mais favoráveis para seu desenvolvimento e evitando a dependência excessiva de uma única potência. A competição entre as grandes economias globais por influência na África sublinha a importância geopolítica e econômica do continente, que se posiciona cada vez mais como um ator relevante no cenário internacional.
O que acontece a seguir no cenário geopolítico africano?
O continente africano consolida sua posição como um polo de influência, tornando-se campo de disputa geopolítica entre potências como China, EUA e Rússia. A busca por maior protagonismo global e a diversificação econômica, impulsionadas por novos investimentos em infraestrutura, continuarão a moldar as dinâmicas regionais e internacionais, com redefinição de alianças estratégicas.
O futuro da África: redefinindo autonomia em um mundo multipolar
A celebração do Dia da África ressalta um continente em plena transformação, aproveitando a ascensão da China e a emergência de outros parceiros para redefinir seu próprio caminho de desenvolvimento. A busca por protagonismo no cenário global não é apenas uma aspiração, mas uma realidade em construção, impulsionada por investimentos em setores estratégicos e por uma diplomacia mais autônoma. Ao equilibrar as relações com múltiplas potências, a África fortalece sua posição de negociação e molda um futuro onde suas prioridades de desenvolvimento são o centro das atenções. O continente africano, com sua rica diversidade e vasto potencial, está se consolidando como um ator indispensável na ordem global multipolar que emerge, pavimentando novas rotas de poder e influência.





