Tecnologia

Brasil avança na produção de semicondutores: Desafios e futuro

5 min leitura

A produção de semicondutores emerge como pilar central na estratégia de desenvolvimento tecnológico e econômico do Brasil. Recentemente, o país tem direcionado esforços para fortalecer sua participação na complexa cadeia global, que hoje se encontra em um ponto de inflexão marcado por tensões geopolíticas e crescente demanda. Augusto Gadelha, presidente do Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (CEITEC), e Edelweis Ritt, diretora de Negócios da empresa pública federal, detalharam a posição atual e as ambições brasileiras para se inserir competitivamente neste setor vital.

O país busca consolidar sua presença na cadeia global de chips, com foco em semicondutores de potência e a fábrica de wafers do Ceitec.

A corrida global pelos chips e a soberania tecnológica

A disputa por semicondutores transcendeu as fronteiras da indústria tecnológica para se tornar um imperativo estratégico para governos em todo o mundo. Esses pequenos, mas poderosos, componentes são a espinha dorsal da economia digital, presentes em virtualmente todos os dispositivos eletrônicos – de celulares a automóveis, de centros de dados a sistemas de inteligência artificial avançada. Sua ubiquidade e a dependência crescente impulsionam uma verdadeira corrida tecnológica global.

Nos últimos anos, a importância crítica dos chips foi ainda mais evidenciada por uma série de fatores. Crises de abastecimento, notadamente durante a pandemia, expuseram a fragilidade de uma cadeia produtiva altamente concentrada. Tensões geopolíticas acentuaram a percepção de que a autonomia na fabricação de semicondutores é fundamental para a segurança nacional e a competitividade econômica. Em resposta, nações investiram bilhões de dólares em planos de expansão da capacidade produtiva e na busca por maior independência tecnológica.

O cenário atual da produção de semicondutores no Brasil

Até o momento, o Brasil não figura entre os grandes produtores de chips de fronteira, que exigem as tecnologias mais avançadas. Contudo, a nação já possui uma inserção em etapas específicas da cadeia, como o encapsulamento. Esse é um passo inicial crucial que o Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (CEITEC) e outros atores buscam expandir, consolidando o país como um player estratégico.

O que se sabe até agora: A cadeia global de semicondutores é complexa e dominada por poucos países, especialmente na Ásia. O Brasil tem uma participação modesta, concentrada em etapas iniciais, mas com a ambição clara de avançar para a fabricação de componentes mais sofisticados. Há um reconhecimento governamental da criticidade do setor para o desenvolvimento nacional e para a inserção competitiva na economia global do futuro, marcada pela digitalização e pela inteligência artificial.

Quem está envolvido: As iniciativas brasileiras são lideradas por instituições como o CEITEC, uma empresa pública federal dedicada à pesquisa, desenvolvimento e produção. O governo federal atua na formulação de políticas de incentivo, enquanto empresas privadas nacionais e estrangeiras, com operações de encapsulamento no país, compõem a base industrial existente. A colaboração entre academia, setor público e privado é vista como essencial para o progresso neste campo de alta tecnologia.

O que acontece a seguir: A estratégia do Brasil foca na identificação de nichos de mercado viáveis, como os semicondutores de potência, e no fortalecimento de competências técnicas. O objetivo é criar um ecossistema robusto que atraia mais investimentos e talento, permitindo ao país dominar etapas mais avançadas da fabricação, como a produção de wafers, e reduzir a dependência externa por componentes críticos para diversas indústrias, da automotiva à energética.

A complexidade de fabricar microchips

O setor de semicondutores é reconhecido por sua extrema complexidade e pelo altíssimo nível tecnológico envolvido. Augusto Gadelha, presidente do CEITEC, ressalta que “produzir semicondutores, principalmente os de fronteira, exige conhecimento tecnológico muito avançado, recursos humanos altamente qualificados e um maquinário de altíssima complexidade — e muito caro. Não é uma coisa barata.” Esta é uma barreira de entrada significativa para muitas nações que aspiram à autonomia.

Historicamente, a fabricação global de semicondutores tem sido concentrada. Se antes os Estados Unidos detinham entre 80% e 90% do mercado mundial, hoje a predominância está na Ásia, com Taiwan e Coreia do Sul como líderes incontestáveis em tecnologias de ponta. Essa centralização intensifica a vulnerabilidade da cadeia de suprimentos e fomenta a busca por uma maior descentralização da produção em âmbito global.

Estratégias do Ceitec e o foco em semicondutores de potência

A CEITEC, como peça central da estratégia brasileira, direciona seus esforços para adquirir a competência necessária para a produção de semicondutores. Gadelha explica que a meta não é produzir “um tipo de chip” universal, mas sim focar em tecnologias e aplicações específicas que sejam comercialmente viáveis e estratégicas para o país. Essa abordagem permite sustentar a operação e, ao mesmo tempo, atrair investimentos, fomentando uma cadeia de negócios robusta.

Atualmente, a empresa concentra-se nos semicondutores de potência. Esses componentes são cruciais para setores em franco crescimento, como automóveis elétricos, sistemas de geração de energia eólica e solar, e motores elétricos. Este foco estratégico não apenas atende a uma demanda crescente, mas também contribui para a formação de recursos humanos especializados e o surgimento de novas empresas no ecossistema de inovação brasileiro.

A fábrica de wafers e o futuro da indústria nacional

Edelweis Ritt, diretora de Negócios da CEITEC, reforça que o foco principal da empresa é a fabricação do wafer, que constitui a base fundamental para a produção dos chips. Com orgulho, ela destaca que a CEITEC possui hoje a única fábrica de wafer com capacidade produtiva na América do Sul. Essa infraestrutura é um ativo estratégico para a região, oferecendo um potencial inédito para o desenvolvimento da indústria local.

Além da fabricação de wafers, a CEITEC também planeja atuar no design de semicondutores e nas etapas finais do processo produtivo. Essa abordagem integrada visa dominar o ciclo completo de desenvolvimento e fabricação, construindo a expertise necessária para um país que tenta se inserir de forma competitiva na “guerra dos chips”. Ritt enfatiza que a indústria global de semicondutores poderá alcançar 1 trilhão de dólares nos próximos anos, impulsionada pela inteligência artificial e outras tecnologias emergentes.

Forjando o futuro digital: A jornada brasileira por semicondutores

A perspectiva de descentralização da produção global de semicondutores, impulsionada pela demanda explosiva e pelas lições das crises de abastecimento, oferece uma janela de oportunidade para o Brasil. Ao consolidar sua capacidade de produção de semicondutores de potência e fortalecer a fábrica de wafers, o país pode se posicionar como uma alternativa atraente para investimentos e um polo de desenvolvimento tecnológico na América Latina. Os desafios são imensos, mas o caminho para a soberania tecnológica, a criação de empregos qualificados e a inserção em cadeias de valor globais de alta complexidade passa inevitavelmente por essa aposta estratégica.

A iniciativa do CEITEC não se restringe à produção física. Ela representa um motor para a capacitação de recursos humanos, a atração de capital e o surgimento de um ecossistema vibrante de startups e empresas de base tecnológica. A jornada para uma produção de semicondutores mais robusta no Brasil é um investimento de longo prazo, crucial para a resiliência econômica e a inovação tecnológica do país em um cenário global cada vez mais competitivo e interdependente.

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