Mulheres no futebol enfrentam um cenário de desafios históricos e preconceito, mas a determinação e o talento estão redefinindo o esporte no Brasil. Atletas, narradoras e gestoras lideram um movimento crucial de transformação, buscando não apenas visibilidade, mas a construção de um ambiente equitativo e seguro para todas. Essa mobilização acontece em diversas frentes, do campo à cabine de transmissão, impulsionada por figuras inspiradoras que rompem barreiras há décadas.
Apesar dos avanços recentes, a participação feminina em campos tipicamente masculinos ainda é uma jornada repleta de obstáculos. No futebol, esporte que foi proibido às mulheres por quase 40 anos no Brasil, as barreiras se mostraram historicamente ainda mais elevadas, exigindo uma resiliência diária para se manter e progredir. O movimento atual transcende a busca por espaço; ele mira a reestruturação de todo o ecossistema esportivo para garantir inclusão e respeito.
Liderança feminina no esporte e a busca por segurança
A ex-jogadora Formiga, figura emblemática do futebol brasileiro, tem agora uma posição estratégica no Ministério do Esporte, onde ocupa a Diretoria de Políticas de Futebol e de Promoção do Futebol Feminino. Em sua nova função, Formiga sublinha a necessidade imperativa de avançar na construção de um ambiente seguro para as mulheres em todas as esferas do esporte. Para ela, a segurança é o alicerce para qualquer crescimento sustentável na modalidade, abrangendo desde as atletas até as equipes técnicas e administrativas.
A trajetória de Formiga é um testemunho de superação: foi a única atleta a disputar sete Copas do Mundo de Futebol, além de conquistar duas vezes o vice-campeonato olímpico e uma vez o vice-campeonato mundial. Em 2007, ela foi peça chave na vitória do Brasil por 5 a 0 sobre os Estados Unidos na final dos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro. Sua experiência em campo agora serve de base para políticas que visam a formação de base e a consolidação de times femininos em todos os estados, seguindo o modelo de São Paulo.
A inclusão de mais mulheres no futebol passa, essencialmente, pela criação de estruturas de base sólidas e acessíveis. “Meninas temos até demais, talentos temos até demais, mas, enquanto não tivermos estrutura, vamos avançar pouco”, enfatiza Formiga. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) registrou, em 2022, apenas 360 jogadoras profissionais e 17 árbitras. Esses números alarmantes ressaltam a urgência de investimentos e de um compromisso mais amplo dos clubes e federações com o desenvolvimento do futebol feminino em todo o país.
O que se sabe até agora
O futebol feminino no Brasil tem visto progressos notáveis em visibilidade e estrutura, impulsionados por ex-atletas e novas políticas governamentais. A conscientização sobre a importância de ambientes seguros e o desenvolvimento da base são prioridades, embora a disparidade numérica em relação ao futebol masculino ainda seja significativa, evidenciando a necessidade de maior investimento e apoio institucional. A luta por reconhecimento é contínua.
A jornada de jovens talentos e a superação do preconceito
Para as novas gerações, o caminho para as mulheres no futebol ainda é marcado por desafios, mas também por uma força inabalável. Isadora Jardim, uma meio-campista de apenas 14 anos, personifica essa realidade. Deixando sua cidade natal no Distrito Federal para atuar no Corinthians em São Paulo, Isadora vive uma rotina intensa de treinos e estudos, com o sonho de se consolidar no esporte. Sua dedicação já lhe rendeu uma convocação para a Seleção Brasileira sub-15, um feito notável para sua idade.
Apesar de seu talento evidente e seu futuro promissor, Isadora já enfrentou comentários desanimadores. “Já ouvi muitos comentários do tipo ‘futebol não é para mulher’, ‘mulher não joga futebol’. E isso nunca é bom, mas aprendi a lidar com eles e a me tornar mais forte”, relata a jovem atleta. Sua experiência reflete a realidade de muitas meninas que precisam desenvolver uma armadura emocional para seguir seus sonhos em um ambiente que, muitas vezes, ainda tenta excluí-las. Isadora é um exemplo inspirador de que a persistência é fundamental.
Quem está envolvido na transformação do futebol feminino
A transformação das mulheres no futebol envolve uma rede de atores: desde atletas consagradas como Formiga, que agora atuam na gestão pública, a jovens promessas como Isadora Jardim, que representam o futuro em campo. Profissionais da mídia, como a narradora Luciana Zogaib, também são fundamentais ao abrir espaço e dar voz ao esporte. Instituições como o Ministério do Esporte e a EBC, por sua vez, fornecem o suporte institucional e a visibilidade necessária para o avanço da modalidade, coordenando esforços em diversas frentes.
A voz feminina nas cabines de transmissão e a quebra de paradigmas
A luta por espaço para as mulheres no futebol não se restringe ao campo. Nas cabines de transmissão, a realidade é igualmente desafiadora, conforme destaca a narradora Luciana Zogaib, integrante da equipe de esportes da EBC. “O rádio tem 100 anos, e só havia homens fazendo esse trabalho de locução. Há uma resistência muito grande em relação às mulheres. Culturalmente, o machismo no futebol é muito, muito forte”, afirma Luciana, evidenciando a dimensão histórica da exclusão.
A presença de vozes femininas na narração e nos comentários esportivos é um passo crucial para normalizar e expandir a participação da mulher no esporte como um todo. Luciana ressalta que essa presença é “fundamental para abrir esse mercado, para que os outros parceiros também vejam a necessidade de ter locutoras [em seus quadros] e, com isso, gerar oportunidades em outros locais”. A diversidade nas equipes de transmissão não só enriquece a experiência do público, mas também inspira novas gerações de mulheres a buscarem carreiras na mídia esportiva.
O que acontece a seguir: o futuro do futebol feminino no Brasil
As próximas etapas para as mulheres no futebol incluem a consolidação de mais times de base em todos os estados, a criação e manutenção de ambientes seguros contra assédio e discriminação, e a valorização da presença feminina em todas as esferas do esporte, desde a gestão até a arbitragem. A Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2027, que será sediada no Brasil, representa um catalisador fundamental para acelerar essas mudanças e solidificar o legado do esporte no país, impulsionando investimentos e visibilidade.
Apoio institucional e a visão para a Copa 2027
A Empresa Brasil de Comunicação (EBC) tem demonstrado um compromisso com a visibilidade das mulheres no futebol, priorizando a exibição de partidas e programas relacionados à modalidade. A EBC integra as câmaras temáticas que trabalham nos preparativos para a Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2027, que ocorrerá no Brasil. Essa colaboração entre a mídia pública e o Ministério do Esporte é essencial para disseminar o esporte em regiões mais afastadas e garantir que o legado do evento seja duradouro e inclusivo.
Recentemente, a secretária extraordinária para a Copa do Mundo de Futebol Feminino 2027, Juliana Agatte, se reuniu com a diretoria da EBC para discutir, entre outros pontos, o legado social e esportivo que a competição pode deixar para o país. Além disso, a CBF anunciou o Calendário do Futebol Feminino para o ano de 2026, e a EBC tem selecionado 4 projetos sobre futebol feminino dirigidos por mulheres, reforçando o compromisso com a produção de conteúdo que valoriza a perspectiva feminina. Tais iniciativas são vitais para o crescimento e a profissionalização da modalidade, garantindo que o entusiasmo gerado pela Copa se traduza em oportunidades reais e perenes para as mulheres brasileiras.
O legado em construção e os horizontes para a equidade
A determinação das mulheres no futebol não é apenas uma força impulsionadora; é a essência de uma transformação social e esportiva profunda. Desde a superação de proibições históricas até a conquista de posições de liderança e representatividade na mídia, a trajetória é de resiliência e avanço. Com o apoio institucional crescente, a dedicação de atletas e profissionais, e a expectativa de eventos grandiosos como a Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2027, o Brasil está pavimentando o caminho para um futuro onde o talento feminino no esporte seja plenamente reconhecido e valorizado, livre de preconceitos e com oportunidades igualitárias para todas.





