O sarampo, uma doença altamente contagiosa e potencialmente letal, tem experimentado um ressurgimento alarmante nos Estados Unidos, alcançando o pior surto em mais de três décadas. Esta escalada é atribuída, principalmente, a mudanças no calendário vacinal americano e à propagação de discursos antivacinação, com o Brasil observando o cenário com preocupação, dada a ameaça de reintrodução da doença em território nacional, que já havia conquistado e mantido seu status de área livre.
Discursos negacionistas nos EUA, especialmente aqueles que ganharam força durante o governo Donald Trump, são apontados como um fator crucial. Recentemente, mais de 4,4 mil casos da doença foram confirmados naquele país, com registro de três óbitos. Dentre os infectados, uma esmagadora maioria, 98%, não havia completado o esquema vacinal.
Retrocesso nos Estados Unidos e a ameaça ao continente
Eder Gatti, diretor do Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Brasil, avalia a situação nos Estados Unidos como um período de retrocessos que representa uma ameaça concreta para todo o continente. Ele enfatiza que o governo americano não apenas chancelou discursos negacionistas, mas teve um secretário de Saúde abertamente contrário à vacinação.
Gatti manifesta a esperança de que o mundo não tome o caso americano como exemplo. Segundo ele, os Estados Unidos estão “colhendo frutos” dessa postura. A vacina contra o sarampo é reconhecida como uma ferramenta de bloqueio eficaz, impedindo que os vacinados contraiam ou transmitam a doença. O descontrole de casos é, portanto, diretamente ligado a esse discurso crescente e perigoso.
A luta do Brasil contra casos importados de sarampo
O aumento da ocorrência do sarampo em outros países, sobretudo nos Estados Unidos, intensifica a pressão sobre o Brasil. Recentemente, o país registrou 61 casos da doença, sendo a maioria de origem importada. Apesar disso, e como não há transmissão sustentada em território nacional desde 2024, o Brasil mantém a certificação de área livre do sarampo, um status que tem sido desafiador preservar.
O diretor do PNI recorda que o certificado brasileiro foi conquistado em 2016 e lamentavelmente perdido em 2019, devido à reintrodução da doença na região Norte, que se espalhou e culminou em um grande surto em São Paulo, com cerca de 19 mil casos. Essa experiência ressalta a vulnerabilidade e a necessidade de vigilância constante.
O que se sabe até agora
O sarampo está em surto nos EUA, impulsionado por negacionismo e mudanças na política de vacinação. O Brasil, que havia eliminado a doença, enfrenta a ameaça de casos importados, exigindo vigilância e altas coberturas vacinais para manter seu status de área livre, evitando um retrocesso sanitário.
Impacto das alterações no calendário vacinal americano
Em agosto, o governo americano implementou uma redução de 17 para 11 no número de imunizantes recomendados para todas as crianças. Além disso, foi estipulado que a vacina tríplice viral (MMR), que protege contra o sarampo, a caxumba e a rubéola e é aplicada desde a década de 1970, fosse separada em três imunizantes distintos, um para cada doença, administrados em diferentes ocasiões.
Juarez Cunha, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), afirma que essas novas recomendações são motivadas por questões políticas, carecendo de base científica, e são inviáveis na prática. As vacinas individualizadas contra sarampo, caxumba e rubéola não são fabricadas há quase 20 anos. O dano, contudo, é imediato e significativo, afetando a percepção pública sobre a imunização.
Quem está envolvido
Os principais envolvidos incluem o governo americano, que alterou as recomendações vacinais, e o Ministério da Saúde do Brasil, via PNI e SBIm, que alertam para as consequências. A Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) monitora os casos no continente, enquanto a população em geral é diretamente impactada pelas decisões e discursos sobre o sarampo.
Perda de confiança e o risco para as Américas
As mudanças nas diretrizes americanas geram grande confusão na população, uma vez que a Academia Americana de Pediatria continua a recomendar as vacinas conforme o esquema anterior. Essa divergência entre um órgão governamental e uma instituição médica fragiliza a confiança pública, um pilar fundamental para o sucesso das campanhas de vacinação.
O diretor da SBIm, Juarez Cunha, também reitera o perigo iminente decorrente do aumento de casos de sarampo nos Estados Unidos e em outras nações americanas. Dados da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) indicam que os casos no continente já superam a marca de 56 mil, com, pelo menos, 80 mortes registradas, evidenciando a gravidade da situação.
O sarampo é uma das doenças com maior facilidade de transmissão quando encontra indivíduos suscetíveis, ou seja, aqueles que não foram adequadamente vacinados. Embora existam pessoas, como recém-nascidos ou imunocomprometidos, que não podem receber a vacina, a imunidade de rebanho é essencial. Se 95% da população ao redor estiver vacinada, cria-se um ambiente protegido para todos, limitando a circulação do vírus.
O que acontece a seguir
A vigilância sanitária global e a cooperação entre países serão cruciais para conter o avanço do sarampo. O Brasil deve manter suas altas taxas de vacinação e estratégias de bloqueio, enquanto a comunidade internacional precisa intensificar o combate ao negacionismo científico e garantir políticas de saúde pública baseadas em evidências para proteger a população.
Brasil na linha de frente para defender a saúde pública
Eder Gatti destaca a diferença de postura e resposta do Brasil, que se reflete nos resultados. Em 2023, ano anterior à reconquista do certificado de eliminação do sarampo, os índices de vacinação da tríplice viral, no calendário básico infantil, foram de 88% para a primeira dose e 66% para a segunda. Já em 2024, a cobertura elevou-se significativamente para 96% e 78%, respectivamente. Para o período atual, as taxas preliminares indicam 95% na primeira dose e 80% na segunda.
O diretor do PNI reforça que, apesar do contexto internacional adverso, o Brasil mantém sua certificação. Ele espera que esse cenário possa ser sustentado, pois o sarampo é uma doença que pode ser fatal para crianças, causar abortos e complicações obstétricas. Sua letalidade é acentuadamente maior em populações vulneráveis, como indígenas e pessoas em situação de pobreza.
A reconquista e a manutenção do certificado de eliminação foram possíveis graças a um trabalho coordenado pelo Ministério da Saúde, em conjunto com governos estaduais e municípios. Essa colaboração focou em aprimorar a vigilância epidemiológica e elevar os índices de vacinação, demonstrando a eficácia de uma abordagem integrada e baseada em evidências científicas para proteger a saúde da população brasileira contra o sarampo.





